Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã [1886-1888], de Friedrich Engels

tudo o que vem a ser

É digno só de perecer

J. W. GOETHE, Fausto, I.

(GOETHE, 2011, p. 119, v. 1.339 e ss.)⁠

 

 1      Introdução

 

Folha de rosto da edição de 1888 de "Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã"
Folha de rosto da edição de 1888 de “Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã”

 

Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã [1886-1888] trata-se de um texto fundamental para os estudiosos do marxismo e consequentemente para a militância comunista.

Neste texto, Friedrich Engels apresentou de forma clara e objetiva os fundamentos da concepção materialista da história; a historicidade da sua formação e desenvolvimento; o inerente potencial que esta possuí para a continuidade do desenvolvimento civilizatório da humanidade; e insights para a aplicação desta, tanto nas ciências da natureza quanto na ciência da história, sendo, portanto, um texto relevante para professores e demais categorias que trabalhem na educação formal.

Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã fora publicado pela primeira vez no ano de 1886 nas edições de nº 4 e 5 no Die Neue Zeit, jornal do Partido Social-Democrata Alemão. Dois anos mais tarde, em 1888, Engels apresentou nova publicação no formato de panfleto contendo prefácio e texto inédito em anexo: as 11 teses preliminares do jovem Marx sobre Feuerbach (MARX, 2007), “escritas à pressa, de modo nenhum [absolut] destinadas a impressão”, entretanto, portadoras do “germe genial da nova visão do mundo” (ENGELS, 1982).

No prefácio redigido para a edição de 1888 de Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã, Engels nos explicou as razões para a redação deste texto. Nas décadas finais do século 19, a filosofia hegeliana experimentou um renascimento na Inglaterra e nos países escandinavos. Entre os filósofos mais destacados desta retomada do pensamento hegeliano encontrava-se C. N. Starcke, que publicou em 1885 livro sobre o pensamento do filósofo alemão da década de 1840, Ludwig Feuerbach[1]. Em razão do amplo conhecimento de Engels sobre a filosofia clássica alemã e da importância de Feuerbach para a formulação de sua visão de mundo (Weltanschauung), i.e., o materialismo dialético, os editores do Die Neue Zeit convidaram Engels para escrever resenha do livro de Starcke.

O convite oferecido a Engels lhe permitiu a oportunidade de retomar o projeto inacabado de crítica filosófica realizado em parceria com Marx nos anos de 1845-1846: A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas. Este projeto visava, conforme registrou Marx, o propósito de “acertar as contas com [sua] antiga consciência filosófica” a partir de “uma crítica da filosofia pós-hegeliana”, porém, jamais veio à luz durante seu tempo de vida em razão das circunstâncias políticas na Alemanha que levaram o editor a recuar e cancelar sua publicação. Contudo, os elementos de maior relevância para a dupla (o acabamento da concepção materialista da história e da dialética, e o ajuste de contas com sua consciência (Gewissen) filosófica posterior) já haviam sido alcançados durante o período de pesquisa, debate e redação da obra. Assim, de acordo com Marx, o manuscrito fora abandonado “à crítica roedora dos ratos”[2] (MARX, 2008, p. 49).

Se fora verdade que o ajuste de contas com sua consciência filosófica posterior fora atingido, o mesmo não pode ser dito a respeito da “crítica roedora dos ratos”. Marx e Engels dedicaram tempo e intelecto nos “dois grossos volumes em oitavo” (ENGELS, 1982) que compreendem os manuscritos d’A ideologia alemã para jogá-los fora desta maneira. No prefácio de 1888 de Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã, Engels nos conta o resgate do “velho manuscrito” a fim de realizar a resenha encomendada pelo Die Neue Zeit, demonstrando que após quatro décadas, a dupla Marx-Engels guardou os manuscritos d’A ideologia alemã com algum mínimo de cuidado.

Neste novo contato com os “velhos manuscritos”, Engels registrou que: “A secção sobre Feuerbach não está completa”; a exposição sobre a concepção materialista da história (considerada como parte pronta do manuscrito) demonstra quão incompleto eram seus conhecimentos sobre história econômica; faltava a crítica à doutrina de Feuerbach. Assim, Engels concluí que os manuscritos não eram adequados para a realização da, então, presente proposta (ENGELS, 1982).

Quadro décadas mais amadurecido intelectualmente, Engels aproveita a nova oportunidade de retomar a pesquisa iniciada em 1845 em parceria com Marx a fim de dar acabamento a sua visão de mundo (Weltanschauung): a concepção materialista da história. Desta forma, Engels nos apresenta em Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã a concepção mais acabada de sua relação com a filosofia de Hegel; as razões para a superação desta; o reconhecimento da influência de Feuerbach (o “elo intermediário entre a filosofia de Hegel” e a filosofia de Marx-Engels) na formulação da dialética materialista; ou, nas palavras do próprio Engels: a oportunidade de acertar a “dívida de honra não saldada” com Feuerbach (ENGELS, 1982).

Enfim, o objetivo visado por Engels com o texto Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã fora de retomar o projeto de crítica filosófica de juventude desenvolvida em parceria com Marx, porém, sob um novo contexto e com a possibilidade de corrigir e complementar as teses e os resultados obtidos durante os anos de 1845-1846 sob as luzes do desenvolvimento posterior do materialismo dialético. Estes objetivos relegaram para último plano a proposta primeira (resenhar o livro de Starcke), pois, a instrução intelectual do proletário e seus aliados para a campanha revolucionária é de importância maior do que a tarefa de desbancar aqueles que visavam reanimar Feuerbach das catacumbas da filosofia clássica alemã.

 

 2      Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã

 

O texto em questão está dividido em quatro capítulos.

No primeiro capítulo Engels apresenta panorama geral da filosofia de G. W. F. Hegel e sua contradição fundamental: o método dialético (elemento revolucionário) e o sistema (elemento conservador).

No segundo e terceiro capítulos Engels trata da filosofia feuerbachiana, suas contribuições e limites no desdobramento da filosofia alemã da década de 1840. No quarto e último capítulo Engels expõe os princípios fundamentais da concepção materialista do mundo desenvolvida ao longo de muitas décadas de parceria com Marx.

A seguir, os destaques dos quatro capítulos acima mencionados.

 

 2.1      I: Hegel: dialética e sistema

 

Hegel com seus alunos em Berlim

 

A dialética, o elemento revolucionário, está presente no pensamento filosófico de Hegel desde o início e por completo (LUKÁCS, 1970).

Hegel expõe os fundamentos de seu método dialético pela primeira vez no livro Fenomenologia do Espírito [Phänomenologie des Geistes], publicado em 1807. Na Fenomenologia do Espírito, Hegel demonstra que “[…] todos os estados históricos que se seguem uns aos outros são apenas estádios transitórios no curso de desenvolvimento sem fim da sociedade humana do inferior para o superior” (ENGELS, 1982).

Até então, o objeto da filosofia (desde Platão, passando por Santo Agostinho, Descartes, Kant etc.) consistia em encontrar através da reflexão especulativa a garantia de verdades universais e absolutas. A partir de Hegel, e de sua dialética, “não subsiste nada de definitivo, de absoluto, de sagrado; ela [a dialética de Hegel] mostra a transitoriedade de tudo e em tudo, e nada subsiste ante ela, senão o ininterrupto processo do devir e do perecer, da ascensão sem fim do inferior ao superior”. Por esta razão, Engels afirma que o caráter revolucionário da dialética hegeliana é absoluto, “o único absoluto que ela admite” (ENGELS, 1982, grifo nosso).

Contudo, em razão das determinações históricas da ciência de seu tempo, Hegel fora condicionado a dar acabamento a sua filosofia, formulando, assim, um sistema.

O sistema filosófico de Hegel fora exposto pela primeira vez em 1812 na obra intitulada Ciência da Lógica [Wissenschaft der Logik]. Em Ciência da Lógica, Hegel reafirma que a “verdade eterna não é senão o próprio processo lógico ou histórico” (ENGELS, 1982). Mas isto não era suficiente; Hegel precisou colocar um ponto final neste processo lógico. Este ponto final fora o regresso ao princípio, o retorno a Ideia absoluta.

Similar ao protagonista de um romance de formação, p. ex., o Wilhelm Meister de J. W. Goethe (1994)⁠, a Ideia absoluta, através de sua ação na história (ou, ao exteriorizar-se [entäussert] na Natureza[3]), passa por fases onde depara-se com desafios que impulsionam o desenvolvimento de sua autoconsciência; em cada fase, a Ideia absoluta adquire novas habilidades que a preparam para enfrentar as novas fases e os novos desafios históricos em condições superiores as anteriores, pois em cada nova fase e novo desfio a Ideia absoluta amplia sua autoconsciência, habilitando-a ser mais efetiva em sua atuação no presente e no futuro. Entretanto, diferente da personagem Wilhelm Meister do romance, a existência da Ideia absoluta transcende gerações e gerações; ela existe desde o princípio e permanecerá existindo por tempo indeterminado; e tudo o que existe, a natureza e a história, deve-se em razão da ação da Ideia.

Conforme Hegel, a ação da Ideia absoluta tem propósito: o processo de autoconsciência e expansão da ideia de liberdade na história. Ao atingir este objetivo, encerra-se a história, i.e., o desenvolvimento da autoconsciência da Ideia através de sua relação dialética com a Natureza.

Assim, o sistema hegeliano encerrou a si mesmo, assumiu conteúdo dogmático e estabelece-se enquanto verdade absoluta. Temos, então, a contradição inerente da filosofia hegeliana: se por um lado, a dialética (revolucionária) dissolve todos os dogmas (as verdades absolutas), do outro lado, o sistema (conservador) abafa e asfixia o lado dialético; “[…] o método [dialético] tinha, por amor ao sistema, de ser, assim, infiel a si próprio” (ENGELS, 1982).

O impacto e a influência da filosofia hegeliana (tanto a dialética quanto do sistema) fora sentido em todas as esferas da sociedade alemã.

Conforme Engels nos relata:

“Compreende-se o efeito enorme que este sistema de Hegel teve de produzir na atmosfera da Alemanha tingida de filosofia. Foi uma procissão triunfal que durou decénios e que de modo nenhum parou com a morte de Hegel. Pelo contrário, precisamente de 1830 a 1840, a “hegelice” [“Hegelei”] dominou do modo mais exclusivo e tinha contagiado mesmo, mais ou menos, os seus adversários; precisamente nesse tempo, perspectivas de Hegel penetraram com a maior abundância, consciente ou inconscientemente, nas mais variadas ciências e levedaram igualmente a literatura popular e a imprensa diária, aonde a «consciência culta» habitual vai buscar a sua matéria de pensamento. Mas esta vitória em toda a linha era apenas o prelúdio de uma luta interna.” (ENGELS, 1982).

 

 2.2      II e III: Feuerbach: materialismo e idealismo

 

Após a morte de seu fundador, a filosofia hegeliana dividiu-se em duas correntes, iniciando uma crise filosófica na Alemanha.

De um lado ficaram os ortodoxos, ou hegelianos de direita, e de outro os radicais, ou hegelianos de esquerda.

Tendência conservadora, os ortodoxos colocaram maior peso no sistema e defendiam a manutenção do despótico e teocrático Estado prussiano enquanto realização última da Ideia absoluta na história. Para justificar sua defesa do Estado prussiano recorriam a preposição hegeliana: “tudo o que é real [no caso, a Prússia], é racional, e tudo o que é racional é real”[4] (ENGELS, 1982).

Contudo, Engels contra argumenta que para Hegel “o atributo da realidade [Wirklichkeit] cabe apenas aquilo que, simultaneamente, é necessário [notwendig]” (ENGELS, 1982). Isto significa que o real não trata-se de um estado de coisas (seja político, econômico, cultural etc.) eterno, mas que, no desdobramento histórico das ações humanas, aquilo que antes era real, torna-se irreal, e portanto, injustificável, e tem de ser encerrado pela história para dar lugar ao novo. Da mesma forma, o despótico e teocrático reino da Prússia, argumentavam seus opositores, necessitava ser superado para dar lugar a um novo estado de caráter democrático e liberal, conforme as condições adequadas ao Espírito do Tempo (Zeitgeist).

Os radicais, ou hegelianos de esquerda, encontravam-se entre aqueles que argumentaram a favor desta visão de mundo. Colocando maior peso na dialética, os radicais antagonizavam a ordem reinante na Alemanha a partir de debates realizados no campo da teologia e da filosofia. Entre os radicais destacaram-se D. F. Strauss, Bruno Bauer, Max Stirner e Arnold Ruge. Mas fora Ludwig Feuerbach, “que os dominava a todos como uma torre” (ENGELS, 1982), quem encerrou o debate em torno da filosofia alemã após Hegel.

Sensível a união do poder político com o poder religioso na Alemanha, Feuerbach lança sua crítica ao idealismo filosófico alemão (que atingiu seu apogeu em Hegel) a partir da crítica à teologia. Feuerbach expõe sua crítica ao público em 1841 no livro A Essência do Cristianismo [Das Wesen des Christenthums].

Engels registra:

“Com um só golpe, [Feuerbach] pulverizou a contradição, ao pôr de novo no trono, sem rodeios, o materialismo. A Natureza existe independentemente de toda a filosofia; ela é a base sobre a qual nós, homens, nós mesmos produtos da Natureza, crescemos; fora da Natureza e dos homens não existe nada, e os seres superiores que a nossa fantasia religiosa criou são apenas o reflexo [Ruckspiegelung] fantástico do nosso próprio ser. O encantamento foi quebrado; o “sistema” foi feito explodir e atirado para o lado, a contradição, porque existente apenas na imaginação, foi resolvida. — Uma pessoa tem, ela própria, que ter vivido o efeito libertador deste livro[5], para fazer uma ideia disso. O entusiasmo foi geral: momentaneamente fomos todos feuerbachianos.” (ENGELS, 1982).

Antagonizando o idealismo filosófico de Hegel, que argumentava que a natureza e a história são produtos da Ideia absoluta, Feuerbach inverte a filosofia hegeliana por uma concepção materialista e antropológica, onde o conjunto dos fenômenos do pensamento humano (filosofia, religião, arte etc.) são produto do próprio homem (enquanto gênero humano) e não de uma Ideia absoluta transcendente.

Assim, Feuerbach trouxe dos céus para a terra todos os deuses e todas as categorias do pensamento humano firmando-os ao chão através de sua filosofia materialista[6]. Entretanto, o materialismo feuerbachiano experimentava os limites históricos intransponíveis das ciências naturais herdadas do século 18 dominadas pela física mecânica, o que impossibilitava a apreensão da natureza como um contínuo fluxo dialético.

Conforme Engels:

“A concepção não-histórica da Natureza era, portanto, inevitável. Podemos tão pouco censurar por isso os filósofos do século XVIII quanto também a encontramos em Hegel. Para este, a Natureza, como mera “exteriorização” [Entäußerung/ “alienação”] da Ideia, não é capaz de nenhum desenvolvimento no tempo, mas apenas de um estirar da sua multiplicidade no espaço, de tal modo que estende todos os estádios de desenvolvimento nela compreendidos simultaneamente de um lado ao outro, e está condenada à eterna repetição sempre do mesmo processo. ” (ENGELS, 1982).

Feuerbach não fora capaz de superar esta condição da filosofia de seu tempo. Em razão disso, o homem feuerbachiano era excessivamente abstrato e idealizado, incapaz de ser apreendido enquanto agente de sua história, i.e., aquele responsável por transformar a si mesmo e a natureza a seu redor a partir de sua atividade cotidiana de produção e reprodução dos meios de produção e de subsistência.

Se por um lado, Feuerbach humanizou os deuses e as categorias abstratas formuladas pelo pensamento, demonstrando a todo seu caráter materialista e antropológico, o homem de Feuerbach permaneceu uma abstração; um ser idealizado; o deus do próprio homem[7].

 

 2.3      IV: Marx-Engels: ciência da natureza e ciência da história

 

Ludwig Feuerbach, dominando "a todos como uma torre"
Ludwig Feuerbach, dominando “a todos como uma torre”

 

A questão fundamental da filosofia (ao menos da filosofia moderna) é saber quem detêm a prevalência na relação entre o pensar [Denken] e o ser [Sein]: o pensamento (a Ideia), ou o ser (a Natureza/ a existência material)? A busca por responder a esta questão desdobra-se ao longo da história dividindo os filósofos em duas grandes correntes de pensamento: o idealismo, a corrente daqueles que consideram a Ideia como precursora da Natureza; o materialismo, a corrente daqueles que consideram a Natureza como a base do edifício de toda a história natural e social.

Hegel conduziu a corrente idealista ao apogeu com o sistema. Feuerbach, ex-aluno de Hegel, utilizando-se do próprio método dialético desenvolvido por seu mestre, contudo, a partir do viés materialista, demonstrou que todo o pensamento humano tem suas raízes não nas nuvens, mas na terra. Entretanto, o materialismo feuerbachiano antagonizava a ordem política e religiosa dominante na Alemanha, que não tolerava qualquer forma de contestação. Consequentemente, Feuerbach sofreu perseguição política dentro das universidades, obrigando-o a “ruralizar[-se] [i.e., de afastar-se da vida pública] e de se tornar azedo numa pequena aldeia” (ENGELS, 1982). Apesar das tentativas de Marx em atrair Feuerbach para o movimento comunista[8], buscando manter ativo seu desenvolvimento filosófico, a filosofia feuerbachiana encerrou-se em definitivo no ano de 1848, após a última onda revolucionária da burguesia europeia.

Ao afastar-se do mundo, Feuerbach deixou para trás um projeto filosófico incompleto (FEUERBACH, 2008a, b). Entre todos os jovens intelectuais alemães que orientavam-se em Feuerbach, Marx e Engels foram os que nos deixaram o maior legado. Através da parceria firmada para os livros A sagrada família [1845] e A ideologia alemã [1845-1846] Marx e Engels colocaram pela primeira vez em prática o projeto de superação da filosofia hegeliana sob o ponto de vista materialista, i.e., apreensão objetiva da natureza e da história.

Entretanto, para a realização deste projeto, a herança filosófica deixada por Hegel não fora posta de lado, pelo contrário, Marx e Engels sustentaram-se em sua dimensão revolucionária: o método dialético[9]. Contudo, em Hegel “a dialética é o autodesenvolvimento do conceito” (ENGELS, 1982), da Ideia. O passo dado por Marx e Engels para a superação consistia em “[…] eliminar esta inversão [Verkehrung] ideológica. Voltámos [diz Engels] a apreender materialistamente os conceitos da nossa cabeça como imagens [Abbilder] das coisas reais, em vez de [apreender] as coisas reais como imagens deste ou daquele estádio do conceito absoluto. ” (ENGELS, 1982).

Em Hegel o mundo real é reflexo (Reflex) do conceito, da Ideia, fazendo com que a dialética fique de cabeça para baixo (auf den Kopf). A partir de Feuerbach, e prosseguindo em Marx e Engels, a dialética fora posta de pé (auf die Füsse). Para tanto, Marx e Engels retomaram o elemento revolucionário da filosofia hegeliana (a dialética) e a libertaram de “seus enfeites idealistas” (ENGELS, 1982) que a impediam de realizar a plenitude de suas potencialidades para o desenvolvimento humano a respeito do mundo natural e social.

“O grande pensamento fundamental de que o mundo não é de apreender como um complexo de coisas prontas, mas como um complexo de processos, onde as coisas, aparentemente estáveis, não passam menos do que as imagens de pensamento delas na nossa cabeça — os conceitos — por uma ininterrupta mudança do devir e do perecer, na qual, em toda a aparente casualidade, e apesar de todo o retrocesso momentâneo, se impõe finalmente um desenvolvimento progressivo […] Mas, reconhecê-lo em palavras e pô-lo em execução na realidade, em pormenor, em todo o domínio que venha a ser investigado, são duas coisas diferentes. Mas, se, na investigação, se partir sempre deste ponto de vista, a exigência de soluções definitivas e de verdades eternas acaba, de uma vez por todas; está-se sempre consciente da necessária limitação de todo o conhecimento adquirido, do seu condicionamento pelas circunstâncias em que foi adquirido […]” (ENGELS, 1982).

A concepção materialista da história formulada por Marx e Engels (síntese e superação do materialismo iluminista e do idealismo filosófico alemão) caminhou lado a lado com o desenvolvimento das ciências da natureza (química, biologia etc.) que experimentaram considerável progresso a partir da segunda metade do século 19[10]. Em razão do conhecimento acumulado durante o século 18 e na primeira metade do século 19, o desenvolvimento posterior das ciências da natureza e da história puderam realizar um salto qualitativo, superando em definitivo o pensamento especulativo até então dominante nas filosofias da natureza e da história pela ciência positiva, i.e., a apreensão objetiva das leis universais da natureza e da história.

Entretanto, apesar de as ações humanas na história terem como solo a natureza, esta última move-se “puramente por fatores cegos, desprovidos de consciência” (ENGELS, 1982), i.e., por instinto, agindo independentemente de qualquer forma de consciência. O mesmo não pode ser dito das ações humanas na história “[…] na história da sociedade, os agentes estão nitidamente dotados de consciência, são homens que agem com reflexão [Überlegung] ou paixão, que trabalham para determinados objectivos; nada acontece sem propósito [Absicht] consciente, sem objectivo querido. ” (ENGELS, 1982)[11]

A confluência das ações humanas, misto de razão e de paixão, movimenta a história[12], sendo que na maior parte dos casos, raramente os resultados destas ações correspondem as suas vontades primeiras. Assim, Engels concluí que a história não pode ser resultado de caprichos individuais, mas que deve haver algo por detrás das paixões e da razão humana atua como motor efetivo da história.

“Quando se trata, portanto, de investigar os poderes impulsionadores que — consciente ou inconscientemente e, por certo, com muita frequência, inconscientemente — estão por detrás dos móbiles dos homens que agem historicamente e que constituem propriamente as forças motrizes últimas da história, não se pode tratar tanto dos móbiles dos indivíduos, por mais eminentes que sejam, mas daqueles que põem em movimento grandes massas, povos inteiros — e, em cada povo, por sua vez, classes inteiras de povo; e isto também, não momentaneamente, para um jacto passageiro e um fogo de palha que rapidamente arde, mas para uma acção duradoura que desemboca numa grande transformação histórica.” (ENGELS, 1982, grifo nosso).

“Tudo o que põe os homens em movimento tem de passar pela cabeça deles; mas que figura toma nessa cabeça, depende muito das circunstâncias. ” (ENGELS, 1982).

O desdobramento histórico das sociedades humanas, conforme Engels, simplificou a resolução do “enigma” da história.

O estabelecimento da grande indústria, particularmente após 1815, desfez o feitiço ideológico que acobertava a apreensão científica da história das sociedades humanas. A partir de então, argumenta Engels, ficou claro que “toda a luta política gira em torno das pretensões à dominação de duas classes”, i.e., a aristocracia da terra (landed aristocracy), herdeira dos valores feudais, e a burguesia (middle class), a classe social que emerge do desenvolvimento do comércio na Idade Média e visava romper em definitivo as amaras do antigo regime feudal que, em um determinado estágio histórico, impedia a expansão de seus interesses econômicos. A partir de 1830, com a Revolução de Julho na França, a classe operária, ou, o proletariado moderno (classe social resultante do desenvolvimento da indústria capitalista), torna-se o “terceiro lutador por essa dominação” (ENGELS, 1982).

Desenvolve-se, assim, a concepção das lutas de classes enquanto motor da história[13]. Os primeiros historiadores a apresentarem as lutas de classes como chave para a apreensão materialista da história foram os historiadores burgueses do período da Restauração Francesa[14]: Guizot, Mignet, Thierry e Thiers.

A partir das revoluções políticas e econômicas dos séculos 18 e 19 (i.e., as revoluções burguesas e as revoluções industriais) “as relações simplificaram-se tanto que tinha que se fechar os olhos premeditadamente para não ver na luta destas três grandes classes e no conflito dos seus interesses a força impulsionadora da história moderna — pelo menos, nos dois países que progrediram mais [Inglaterra e França]. ” (ENGELS, 1982).

Com esta nova visão de mundo, o materialismo dialético, Marx e Engels foram capazes de prosseguir com o desenvolvimento científico da história social. Os resultados de suas pesquisas historiográficas podem ser apreciados em uma multiplicidade de textos: Manifesto do Partido Comunista [1848], A Guerra dos Camponeses alemães [1850], Revolução e contrarrevolução na Alemanha [1851-1852], O 18 brumário de Luís Bonaparte [1852], Do socialismo utópico ao socialismo científico [1880], A origem da família, da propriedade privada e do Estado [1884], o próprio Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã [1886; 1888], além de outros mais.

Com os textos acima mencionados podemos compreender em conformidade com as lentes do materialismo dialético o conjunto da histórica humana, seu passado e presente, a constituição e natureza do Estado e do direito público e privado, a formação das religiosidades e das religiões, os avanços e recuos da ciência e da técnica etc.

Assim como se substitui a filosofia especulativa da natureza pela ciência da natureza, o mesmo se passou com a história a partir da fundação do materialismo dialético; encerrou-se o domínio da filosofia da história substituído-a pela ciência da história.

“[…] a concepção dialéctica da Natureza torna tão desnecessária quanto impossível toda a filosofia da Natureza. Por toda a parte, não se trata mais de congeminar conexões na cabeça, mas de as descobrir nos factos. Para a filosofia desalojada da Natureza e da história, fica ainda então apenas o reino do pensamento puro, na medida em que ainda resta: a doutrina das leis do próprio processo do pensar, a lógica e dialéctica.” (ENGELS, 1982).

* * *

No encerramento do quarto capítulo, Engels trata dos efeitos ideológicos e políticos das revoluções burguesas de 1848.

Com as Revoluções de 1848, a burguesia europeia consolida a conquista do Estado nos países capitalistas mais avançados, livrando-se, assim, dos resquícios feudais que impediam o pleno desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo industrial.

Engels compreende as Revoluções de 1848 como sendo um período divisor da história universal. Ao consolidar a conquista do Estado, a burguesia europeia deixou de ser o elemento revolucionário da sociedade para, a partir de então, atuar enquanto elemento conservador. Pela primeira vez na história o proletariado moderno atuou com autonomia em busca da realização de seu próprio projeto político, a revolução socialista.

Durante os conflitos sociais dos anos 1848 até, aproximadamente 1850, a burguesia europeia conscientizou-se de que sua ideologia ao ser apropriada pelo proletariado moderno tornou-se uma força material irresistível que impulsionaria a revolução política burguesa para uma revolução social radical[15], capaz de subtraí-la enquanto classe dominante no poder do Estado. Assim, a burguesia europeia, logo após encerrar a luta contra a classe que lhe era superior, i.e., a aristocracia feudal, “enreda-se numa luta contra a classe inferior”, i.e, o proletariado (MARX, 2010a, p. 155).

Paralelamente a consolidação da conquista do Estado, a burguesia iniciou sua fase de decadência ideológica[16]. A partir de então, os ideólogos da dominação burguesa passam a produzir teorias apologéticas que visam a manutenção da ordem econômica, política e cultural da classe à qual pertencem e/ ou representam.

Contudo, havia aqueles que, a partir da apreensão materialista da experiência histórica da humanidade, superaram os limites inerentes da visão de mundo burguesa, entre eles, os comunistas Marx e Engels, e formularam a partir de suas ruínas a nova concepção de mundo a serviço do proletariado moderno e da revolução social. Marx e Engels ao reconhecerem “na história do desenvolvimento do trabalho a chave para o entendimento da história conjunta da sociedade”, constituíram-se enquanto intelectuais orgânicos do proletariado, encontrando neste último “a receptividade que não procur[aram] nem esperava[m] da ciência oficial” e decadente da burguesia pós-1848 (ENGELS, 1982).

 

 3      Considerações finais

 

Caricatura dos jovens hegelianos de Berlim (Bruno Bauer, Arnold Ruge, Max Stirner etc.) por Engels
Caricatura dos jovens hegelianos de Berlim (Bruno Bauer, Arnold Ruge, Max Stirner etc.) por Engels

 

O texto que temos em mãos consiste na primeira tentativa de organização e síntese do estudo da história da filosofia clássica alemã. Em razão de seu caráter incipiente, existem muitas correções e aprimoramentos a serem feitos.

O objetivo deste primeiro estudo consiste na compreensão panorâmica da transição da dialética idealista para a dialética materialista na Alemanha, i.e., a construção da nova concepção materialista da história de Marx e Engels a partir da crítica ao idealismo hegeliano e ao materialismo feuerbachiano.

Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã [1886; 1888] fora durante muitos anos o substituto adequado para A ideologia alemã [1845-1846], obra de maior folego que somente veio à luz em 1932, i.e., 86 anos depois de sua redação.

A ideologia alemã (assim como A sagrada família [1845]) fora redigida no contexto dos debates dos anos 1840 em torno dos rumos da filosofia alemã, fazendo com que muitas passagens deste texto (tal como as críticas aos jovens hegelianos de Berlim, p. ex., Bruno Bauer, Arnold Ruge, Max Stirner, entre outros mais) sejam um tanto obscuras para os leitores contemporâneos, dificultado a apreensão apropriada de seu conteúdo; ou, conforme o próprio Engels registrou em 1886, os debates filosóficos da juventude alemã da década de 1840 tornaram-se “[…] para a geração actual na Alemanha tão estranho como se tivesse já um século inteiro de idade.” (ENGELS, 1982)

Por outro lado, Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã, escrito décadas após A ideologia alemã e A sagrada família, quando os debates filosóficos e teológicos das décadas de 1830-1840 haviam sido superados, apresenta-nos a história da filosofia alemã sob outra perspectiva, fazendo com que as críticas acaloradas das décadas anteriores à Bruno Bauer, profetas e consortes interferissem no texto em questão com nada mais do que algumas poucas linhas.

Para além de um texto sobre a história da filosofia alemã, Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã trata-se do texto onde os fundamentos da concepção materialista da história foram apresentados da forma mais completa até então. Neste texto, partindo “[…] das lições da experiência, iluminadas por uma concepção filosófica profunda e um rico conhecimento da história” (LÊNIN, 2011, p. 64)⁠, Engels expõe com a clareza e a objetividade necessárias à formação intelectual da classe operária a história da filosofia, a história das religiões e da religiosidade humana, o desenvolvimento da ciência, a formação das sociedades de classes e do Estado, o papel do direito e da ideologia e, ao final, reconhece o movimento operário como herdeiro das potencialidades revolucionárias da sociedade contemporânea.

Desta maneira, a publicação d’A ideologia alemã não dispensa a leitura e o estudo de Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã, mas, faz deste último um complemento indispensável para a melhor compreensão do primeiro.

Por fim, Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã trata-se de um entre muitos outros textos no qual Engels apresentou de forma acessível um conteúdo de alta complexidade, tendo por finalidade o ensino da história universal a serviço da classe operária, corroborando com Lênin (1977)⁠ que reconheceu em Engels, um autodidata em filosofia[17], o maior professor do proletariado moderno.

 

 4      Referências bibliográficas

 

Marx e Engels em momento de estudo e debate
Marx e Engels em momento de estudo e debate

 

Segue a bibliografia citada ao longo do texto e outras referências bibliográficas não citadas, porém, complementares aos estudos da filosofia clássica alemã e do materialismo dialético de Marx-Engels.

 

BLANK, Daniel; CARVER, Terrell. A political history of the editions of Marx and Engels’s “German ideology manuscripts”. New York: Palgrave Macmillan, 2014.

CARLI, Ranieri. As raízes históricas da sociologia de Max Weber. 2008. 265 f. Tese (Doutorado em Serviço Social). Rio de Janeiro: Centro de Filosofia e Ciências Humanas-Universidade Federal do Rio de Janeiro (CFCH-UFRJ), 2008.

COUTINHO, Carlos Nelson. O estruturalismo e a miséria da razão. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 1972.

DARWIN, Charles. Origem das espécies. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002.

ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring: a revolução da ciência segundo o senhor Eugen Dühring. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2015.

ENGELS, Friedrich. Do socialismo utópico ao socialismo científico. São Paulo: EDIPRO, 2011.

ENGELS, Friedrich. Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Obras Escolhidas: tomo III. Lisboa-Moscovo: Edições “Avante!”-Edições Progresso, 1982. p. 378–421. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/marx/1886/mes/fim.htm>.

ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas. São Paulo: Boitempo, 2007.

ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. A sagrada família, ou, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2011.

ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Manifesto [do Partido] Comunista. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2010.

FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

FEUERBACH, Ludwig. Necessidade de uma reforma da filosofia. Covilhã: LusoSofia, 2008a.

FEUERBACH, Ludwig. Teses Provisórias para a Reforma da Filosofia. Covilhã: LusoSofia, 2008b.

GOETHE, Johann Wolfgang Von. Fausto: uma tragédia – primeira parte. São Paulo: Ed. 34, 2011.

GOETHE, Johann Wolfgang Von. Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 1994.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio: 1830: v. 1. A ciência da lógica. São Paulo: Loyola, 1995.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espírito: Parte I. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992a.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia Do Espírito: Parte II. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992b.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Princípios da filosofia do direito. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

LÊNIN, Vladimir Ilitch. O estado e a revolução. Campinas, SP: FE/UNICAMP, 2011.

LÉNINE, V. I. Friedrich Engels. Obras Escolhidas de Lénine em 3 Tomos: 1o Tomo. Lisboa-Moscovo: Edições “Avante!”-Edições Progresso, 1977. . Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1895/mes/engels.htm>.

LESSA, Sérgio; TONET, Ivo. Introdução à filosofia de Marx. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

LUKÁCS, Georg. El asalto a la razón: La trayectoria del irracionalismo desde Schelling hasta Hitler. 1. ed. México-Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1959.

LUKÁCS, Georg. El joven Hegel y los problemas de la sociedad capitalista. 2. ed. Barcelona-México, D.F.: Ediciones Grijalbo, 1970.

MARX, Karl. 1. Ad Feuerbach/ Marx Sobre Feuerbach. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas. São Paulo: Boitempo, 2007. p. 533–539.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008: Expressão Popular, 2008.

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Introdução. Crítica da filosofia do direito de Hegel. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2010a. .

MARX, Karl. Glosas críticas ao artigo “’O rei da Prússia e a reforma social’. De um prussiano” [2a parte: Vorwärts!, n. 64, 10 de agosto de 1844]. Lutas de classes na Alemanha. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2010b. p. 43–52.

MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: Livro I: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

MECW 02. Marx/ Engels Collected Works. Volume 2: Engels: 1838-1842. London: Lawrence & Wishart, 1975.

MECW 03. Marx/ Engels Collected Works. Volume 3: Engels: 1843-1844. London: Lawrence & Wishart, 1975.

MEW 27. Marx-Engels-Werke. Band 27: Februar 1842-Dezember 1851. 1. ed. Berlin: Dietz Verlag, 1963.

[1]    STARCKE, C. N. Ludwig Feuerbach. Stuttgart: Ferd. Encke, 1885.

[2]    Os manuscritos correspondentes A Ideologia Alemã [Die deutsche Ideologie] viriam a ser publicados em 1932 na União Soviética, em edição a cargo do Instituto de Marxismo-Leninismo de Moscou. Para mais informações sobre os manuscritos d’A ideologia alemã ler: BLANK, D.; CARVER, T. A political history of the editions of Marx and Engels’s “German ideology manuscripts”. New York: Palgrave Macmillan, 2014.

[3]    A Natureza aqui é exteriorização/ degradação da Ideia absoluta, i.e., Natureza enquanto produto/ derivado do pensamento, existindo somente em razão da condescendência e necessidade da Ideia absoluta para desenvolver autoconsciência.

[4]    A citação de Engels é uma variação de passagens dos textos Princípios da Filosofia do Direito [Grundlinien der Philosophie des Rechts], 1821, e do §6 da Enciclopédia das Ciências Filosóficas  [Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften], 1817 de G. W. F. Hegel.

[5]    Trata-se do livro A Essência do Cristianismo.

[6]    Cf. Feuerbach: “A consciência de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo, o conhecimento de Deus o conhecimento que o homem tem de si mesmo. Pelo Deus conheces o homem e vice-versa pelo homem conheces o seu Deus; ambos são a mesma coisa” (FEUERBACH, 2007, p. 44)⁠.

[7]    Cf. Engels: “Feuerbach não conseguiu encontrar o caminho do reino das abstracções, mortalmente odiadas por ele próprio, para a realidade viva. Ele agarrou-se com força à Natureza e ao homem; mas, Natureza e homem permanecem, nele, meras palavras [i.e., abstrações]. Nem acerca da Natureza real, nem acerca do homem real, ele nos sabe dizer algo de determinado. Só se passa, porém, do homem abstracto de Feuerbach para os homens vivos reais, se se os considerar a agir na história.” (ENGELS, 1982, grifo nosso)⁠

[8]    Marx (até onde nos foi possível ter acesso) manteve correspondência com Feuerbach durante os anos de 1843-1844. Em uma destas cartas (Paris, 11 ago. 1844), Marx considera Feuerbach como aquele que forjou a base filosófica para o socialismo (MECW 03, p. 354; MEW 27, p. 425–428)⁠.

[9]    No Prefácio de 1885 do livro Anti-Dühring, Engels registra: “Marx e eu [Engels] fomos praticamente os únicos que tomaram da filosofia idealista alemã a dialética consciente e a salvaguardaram na concepção materialista da natureza e da história.” (ENGELS, 2015, p. 37)⁠

[10]  Engels (1982)⁠ destaca três grandes descobertas no período: a célula; a transformação da energia; a teoria da evolução de Charles Darwin (2002)⁠.

[11]  Conforme Marx: “Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e uma abelha envergonha muitos arquitetos com a estrutura de sua colmeia. Porém, o que desde o início distingue o pior arquiteto da melhor abelha é o fato de que o primeiro tem a colmeia em sua mente antes de construí-la com a cera. No final do processo de trabalho, chega-se a um resultado que já estava presente na representação do trabalhador no início do processo, portanto, um resultado que já existia idealmente.” (MARX, 2013, p. 255–256)⁠

[12]  Conforme Engels: “Os homens fazem a sua história, ocorra ela como ocorrer, perseguindo cada um os seus próprios objectivos queridos conscientes, e a resultante destas várias vontades que agem em diversas direcções e da sua influência múltipla sobre o mundo exterior é que [é], precisamente, a história.” (ENGELS, 1982)⁠

[13]  “Na história moderna, pelo menos, está, portanto, demonstrado que todas as lutas políticas são lutas de classes e que todas as lutas de emancipação das classes, apesar da sua forma necessariamente política — pois, toda a luta de classes é uma luta política —, giram finalmente em torno da emancipação económica.” (ENGELS, 1982, grifo nosso)⁠

[14]  A Restauração Francesa corresponde ao segundo reinado da dinastia dos Bourbons na França (1814-1840).

[15]  Sobre as categorias de revolução política e revolução social ler MARX, K. Glosas críticas ao artigo “’O rei da Prússia e a reforma social’. De um prussiano” [2a parte: Vorwärts!, n. 64, 10 de agosto de 1844]. Lutas de classes na Alemanha. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2010. p. 43–52.

[16]  Sobre a decadência ideológica burguesa ler: El asalto a la razón (LUKÁCS, 1959)⁠, “O problema da razão na filosofia burguesa” (In COUTINHO, 1972)⁠, “O problema do irracionalismo” (CARLI, 2008)⁠.

[17]  Recordemos que Engels não concluiu o ginásio, o que o impediu de matricular-se formalmente no ensino superior e, consequentemente, ter algum um diploma e título de doutor. Conforme o próprio Engels reconheceu em correspondência a Arnold Ruge (Berlim, 15 jun., 26 jul. 1842): “Eu sou jovem e autodidata em filosofia. Aprendi o suficiente para formar meu próprio ponto de vista e defendê-lo quando necessário, mas não o suficiente para ser capaz de trabalhar com sucesso e da forma adequada em razão deste. Grandes exigências me serão feitas em razão de ser um “diletante” em filosofia que não ganhou o direito de filosofar ao obter um diploma de doutor. Espero ser capaz de satisfazer estas exigências quando, novamente, começar a escrever – e sob meu próprio nome.” (MECW 02, 1975, p. 545, tradução nossa)⁠

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