A triste história das universidades federais na Pátria Educadora

Ao bradarmos ‘Brasil, pátria educadora’ estamos dizendo que a educação será a prioridade das prioridades, mas também que devemos buscar, em todas as ações do governo, um sentido formador, uma prática cidadã, um compromisso de ética e sentimento republicano”. Desta forma, a presidenta Dilma Rousseff anunciou, em seu discurso de posse para o segundo mandato presidencial (no dia 1º de janeiro de 2015), no Congresso Nacional, o lema de seu governo para os próximos quatro anos: “Brasil, Pátria Educadora”[1].

A prioridade de seu governo seria, com isso, a educação. No entanto, em poucos momentos de nossa história recente a educação esteve sob ataque tão intenso, em todos os níveis.

No âmbito federal, a luta dos trabalhadores das instituições federais de ensino superior (IFES), já com uma extensa pauta que inclui a defesa do caráter público, republicano e democrático da educação, a luta por uma universidade socialmente referenciada, por um plano de carreira que garanta direitos permanentes (com piso adequado e tabela salarial com parâmetros definidos em lei), por condições adequadas de trabalho, políticas salariais que reponham perdas e recomponham o poder aquisitivo de servidores frente a inflação, e a reversão de um regime previdenciário que furta do servidor o direito de receber valores integrais – o que significaria, para aposentados e pensionistas, até 75% a menos de seu salário na ativa, atingindo todos aqueles concursados a partir de junho de 2012 com o advento da Lei 12.658 -; ganha tristemente o acréscimo da labuta pela revogação da Medida Provisória n° 664[2], de 30 de dezembro de 2014, que restringe o acesso à pensão por morte e muda o cálculo da aposentadoria; da MP n° 665[3], de mesma data e que enrijece as regras para pagamento do seguro-desemprego e do abono salarial, anunciando novas medidas de ajuste fiscal que comprometem não apenas conquistas históricas da classe trabalhadora, mas as próprias condições materiais de funcionamento das universidades federais.

As medidas de ajuste fiscal anunciadas pela nova equipe econômica do governo, consistindo em uma nova política tributária, em cortes com gastos públicos (sangrando principalmente a educação e a saúde) e em redução de benefícios trabalhistas, têm a finalidade de mover maiormente para o pagamento dos juros da dívida pública o montante de R$ 122 bilhões, dentre os quais, de acordo com Joaquim Levy, o Ministro da Fazenda, R$ 66,3 bilhões (correspondentes a 1,2% do Produto Interno Bruto) seriam obtidos, somente em 2015, por meio do contingenciamento das contas públicas, incluindo cortes no repasse de verbas para a Educação Federal.

E por que isso seria necessário? Segundo o mantra entoado a partir do Palácio do Planalto e ecoado pela grande mídia: para ajustar a economia brasileira às demandas de uma economia internacional em crise, pelo menos desde o ano de 2008. Logo, face à crise do capitalismo mundial, as políticas de contingenciamento que afetam diretamente a classe trabalhadora seriam a única solução plausível.

Mas cuidemos desses pressupostos que, quase sempre, são tomados acriticamente como verdadeiros.

Em primeiríssimo lugar, crises não são fenômenos anômalos na história do capitalismo, senão uma variável lógica de seu desenvolvimento sistêmico ou, como querem os oportunistas mais venais, oportunidades únicas de negócios.

A existência de ciclos de comércio, de expansão e queda de suas atividades, já é fenômeno conhecido desde o séc. XIX quando se aguardava que ocorressem, com variações, a cada período de 7 a 11 anos. No final do séc. XIX, uma periodicidade mais extensa chamou a atenção de economistas e homens de negócio e, no início da década de 1920, o fenômeno foi objeto de teorização por parte do economista russo Nikholai Kondratiev, quem identificou um padrão de desenvolvimento econômico em forma de “ondas longas” ou “longos ciclos” de 50 a 60 anos, de expansão e contração da economia mundial. Apesar de os ciclos terem sido aceitos como “fenômenos naturais” da economia (tais quais fenômenos meteorológicos!), apenas a partir da difusão das teses que identificaram nas relações impessoais de mercado uma tendência geral à queda das taxas de lucro, percebeu-se que os ciclos faziam parte de um processo pelo qual o capitalismo geraria suas próprias contradições, internas e insuperáveis, que poriam em risco a existência do sistema econômico como tal. Como explicou Eric Hobsbawm tratando da crise dos anos 1930, enquanto se esperava que a economia mundial seguisse crescendo, pela primeira vez na história do capitalismo as flutuações que caracterizavam o sistema representavam perigo à existência do próprio sistema[4].

Mais do que uma variável lógica, as crises do capitalismo são avidamente esperadas para a implementação de ainda mais medidas de desmonte de direitos, de onde se pretende a manutenção das mesmas taxas de lucro anteriores à crise e que, uma vez superada, poria as taxas de lucro em novíssimos patamares.

Outro pressuposto frágil é o de que o pagamento dos juros da dívida pública seria algo inescapável quando, em concreto, trata-se de uma opção tomada claramente em benefício do mercado (nesse caso, representado declaradamente por Joaquim Levy). A prioridade das prioridades, parece-nos, é exatamente o pagamento dos juros da dívida pública para a produção do superávit primário esperado por investidores, sob chantagem constante de fuga de capitais.

A dívida pública, como sabemos, é constituída por empréstimos feitos pelo Estado brasileiro (incluindo o governo federal, estados, municípios e empresas estatais) junto a instituições financeiras (tanto públicas quanto privadas), o mercado financeiro (interno ou externo), empresas, organismos (nacionais e internacionais), outros governos e até mesmo pessoas físicas.

E de que forma tem origem, no Brasil, uma dívida pública impagável de que se vale o capitalismo especulativo? Convencionou-se dizer de três origens principais, dentre as quais a primeira é que vem sendo responsabilizada pelo montante da crise, de acordo com os seguidores da cartilha neoliberal, homens de negócio e pseudo-especialistas da grande imprensa: o financiamento de gastos públicos, como despesas com o funcionalismo público, previdência social, educação, saúde e segurança, por exemplo, que deveriam ser objeto de cortes; não se diz o mesmo, contudo, de duas outras origens de muito maior impacto sobre o erário: os gastos com juros sobre as dívidas contraídas anteriormente (a rolagem da dívida) e a política monetária e cambial, fatores que impulsionaram exponencialmente o crescimento da dívida, devido as taxas de juros praticadas para seu cálculo e os custos da política monetária e cambial.

A prática de taxas altíssimas de juros foi uma das características do Plano Real desde sua implementação, para atração de capitais externos de curto prazo, produzindo por meios artificiais a valorização do real em relação ao dólar. O instrumento levaria à produção artificial do superávit primário na média desse período, calculada a diferença entre receitas e despesas, excluídos os gastos financeiros.

Apesar de atrair investidores, a prática levou a um ciclo vicioso que em curto espaço de tempo fez com que a dívida pública ganhasse gigantescas proporções. A tendência ficou demonstrada entre os períodos de 1994, quando a dívida pública interna líquida comprometia 20,7% do PIB, e 1999, quando a porcentagem saltou para 40%; mobilizando em torno de R$ 250 bilhões apenas para o pagamento dos juros.

Uma das formas que o governo encontrou para captação de recursos a fim de seguir financiando suas atividades foi a emissão de títulos da dívida pública (via Tesouro Nacional), e cujos juros seriam calculados de acordo com a variação da taxa Selic. Logo, passou a haver uma intensa pressão do mercado para que se praticassem as taxas mais altas possíveis uma vez que quão maiores os juros, maior o montante a ser pago pelo governo aos seus credores (em grande medida vinculado ao capital especulativo) tornando-se consequentemente maior a dívida pública. Tornando-se a dívida impagável, a solução para o pagamento dos empréstimos é a obtenção de ainda mais empréstimos, ou seja, o governo empresta de uns para pagar outros e a maior parte dos juros acaba sendo paga por meio da criação de novas dívidas, ou seja, da rolagem da dívida. Para que se tenha uma ideia do tamanho do rombo, de 2009 a 2013 apenas R$ 491 bilhões foram pagos, por meio primordialmente da arrecadação de impostos, de juros que somavam nada menos do que R$ 1,1 trilhão, sendo R$ 574 bilhões provenientes de novos endividamentos. O que para a população brasileira consiste em gravíssimos problemas (a transferência de vultosas quantias, dos cofres públicos, para cofres privados), para o capital especulativo converte-se em uma situação extremamente favorável, dado o grau de dependência do setor público com a rolagem da dívida, o que faz crescer o risco de empréstimo de dinheiro ao governo que, por sua vez, tende a ser compensado com mais aumento ainda da taxa de juros.

É por isso que enquanto várias economias, mundo afora, praticam taxas de juros de 0 a 0,5% ao ano, a taxa Selic anunciada em janeiro de 2015 determinou o montante de 12,25%, conforme pretendido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), o que representa um impacto de R$ 7 bilhões a R$ 10 bilhões na dívida pública federal.

Com isso, o pagamento dos juros vem consumindo dos cofres públicos quase o valor de um estádio de futebol, como o Itaquerão (que custou em torno de R$ 1,2 bilhão), por dia!

Mais precisamente, os gatos do governo federal com juros e amortização da dívida pública, em 2014, chegaram a R$ 978 bilhões, nada menos que 45,11% de todo o orçamento executado naquele ano. De acordo com Maria Lucia Fattorelli e Rodrigo Ávila, do movimento “Auditoria Cidadã da Dívida”: “essa quantia corresponde a 12 vezes o que foi destinado à educação, 11 vezes aos gastos com saúde, ou mais que o dobro dos gastos com a Previdência Social…”[5], conforme o gráfico demonstrado abaixo, onde resulta difícil encontrar a fatia referente a gastos com a Educação.

 

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É dessa forma que conquistas históricas vêm abaixo. Em especial, assistimos a uma nova onda de choque neoliberal, por meio da retomada mais incisiva de retiradas de direitos históricos da classe trabalhadora e da intensificação do processo de apropriação do fundo público por interesses privados, do que resulta o abandono das instituições públicas como as universidades federais desassistidas do básico para o seu funcionamento, que dirá para cumprir sua missão histórica de manter-se referência na produção de conhecimento científico e em nome de um projeto nacional, visando a promoção do bem comum e não de pequenos grupos de interesse econômico.

Até o momento, R$ 7 bilhões já foram cortados do orçamento da educação pública, retirados, nas IFES, das verbas de custeio e investimento, o que já repercute na impossibilidade de oferta de serviços os mais básicos como creches, restaurantes universitários e até mesmo banheiros, interditados devido à falta de limpeza. As medidas já provocaram, também, cortes de bolsas para pesquisa e monitoria, tendo chegado às agências de fomento. Contas de água e luz também deixaram de ser pagas, o que em curto espaço de tempo impedirá qualquer tipo de atividade de ensino, pesquisa e extensão. Também foram demitidos funcionários terceirizados em funções como as de limpeza, recepção e segurança, levando diretores de unidades de ensino a soluções mirabolantes e desonrosas como a de privilegiar contratos com empresas pagantes dos menores salários possíveis, ainda que “nos termos da lei”. Já padecendo da falta de professores e funcionários técnico-administrativos, a luta dos trabalhadores pelos trabalhadores tem um compromisso, antes de tudo moral, para com terceirizados que sequer condições têm de se mobilizar, dada a precariedade de seus regimes de contratação e da facilidade com que podem ser substituídos (situação que, como veremos, se pretende estender a docentes e técnicos nas IFES).

Frente a degradação inconteste do ambiente acadêmico e a intensificação do processo de retirada de direitos, a mobilização torna-se a única alternativa! É claro que disso discorda uma parcela significativa de docentes ávidos pela busca de “soluções alternativas”, no mercado, para que as universidades públicas passem a custear sua própria existência, como a privatização de seus espaços, a oferta de cursos pagos e a busca por recursos para a pesquisa em instituições privadas que se beneficiariam do conhecimento produzido sem um pré-requisito indispensável às ciências: autonomia. Diz-se inclusive, na grande imprensa, da possibilidade de pagamento de mensalidades por parte dos alunos de graduação, já que apenas uma pequena parte (em torno de 20%) é egressa da escola pública e que a maioria do alunado, com isso, poderia e deveria pagar pelo acesso à educação superior, o que significaria não apenas acatar a problemática da exclusão e do elitismo vigentes no ensino superior público, sem problematizar ou pretender superar o problema, mas amoedá-lo! A mágica é a da conversão do problema em lucro; não que com isso o problema venha a ser solucionado; mas pelo menos o problema de muitos possibilitaria a vantagem de poucos ou, como dizia um amigo numa pequena cidade de interior que há muito deixei: “no final das contas tudo dá certo, pelo menos para alguém!”

Com postura mais de pregadores do que de docentes, apoiados numa literatura mais inclinada à autoajuda do que em teses acadêmicas, bastaria subtrair da palavra “CRISE” a consoantes adequada para que se obtivesse o imperativo “CRIE” e, da mágica, não resultaria apenas uma plateia em transe piscando olhos como sapos numa lagoa, tomando nota do nada e levando como lição de casa a leitura de textos como “Quem mexeu no meu queijo?”, mas a porta de entrada para que as clivagens sociais vigentes em sociedade passassem a ordenar de uma vez por todas o ambiente das universidades públicas.

A proposta que, diga-se de passagem, parece-nos bem-vinda por parte do governo federal, radicaliza o processo já em curso de transferência da educação para o universo do lucro privado, por meio do repasse de recursos públicos para grupos que já cotizam em bolsas internacionais (como ocorre em programas como o PROUNI, por exemplo) e comprometendo o processo de construção do conhecimento submetido, nesses termos, à lógica do mercado, deixando a universidade pública, em suas práticas, de referenciar-se na sociedade na qual o próprio mercado encontra-se inserido.

O professor, de agente produtor de conhecimento, converter-se-ia de vez em “dador de aulas” e a atividade docente perderia sua função social, como mero instrumento do mercado assim como as políticas de financiamento destinadas às universidades e todo o regramento existente das relações de trabalho nas IFES.

O projeto vem sendo executado a largos passos. Não nos esqueçamos do que pretendia a Lei 12.772/2012[6], prevendo o ingresso na carreira docente apenas no primeiro nível da classe de Auxiliar, por meio de concurso para o qual se exigia tão somente graduação, enquanto doutores estariam obrigados à condição de Auxiliar por 3 anos, podendo pleitear promoção para Adjunto somente após o término do estágio probatório.  Obrigado o Governo Federal a recuar, novo e brutal ataque é desfechado com a decisão do Supremo Tribunal Federal, emanada nos autos da Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 1.923, proposta pelo PT e pelo PDT contra a Lei 9.637/98, sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, que autoriza contratação, pela Administração Pública, de prestadores de serviços via Organizações Sociais sem concurso público, sem estabilidade funcional e sem regime de dedicação exclusiva ao ensino, pesquisa e extensão.

O modelo de gestão já foi exaltado pelo presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) para que seja aplicado em universidades públicas. Jorge Almeida Guimarães, que além de presidir a CAPES é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresentou a proposta no dia 22 de setembro de 2014 durante o simpósio internacional “Excelência no Ensino Superior”, no Rio de Janeiro, explicando de que forma a universidade pública se consolidaria como centro de excelência no processo de construção do conhecimento por meio da contratação de professores e pesquisadores, pelas instituições de ensino, sem concursos públicos de provas e títulos, regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e sem dedicação exclusiva ao ensino, pesquisa e extensão. De acordo com o modelo, sequer licitação é necessária!

O modelo já vêm sendo utilizado em hospitais públicos, convertidos em laboratórios de experimentos neoliberais para gestão do erário. Nas universidades públicas, o tipo de contratação não se restringiria somente a professores, mas também a funcionários técnico-administrativos que passariam igualmente a ser contratados sem concurso público, como celetistas e sem estabilidade funcional; como se os já conhecidos problemas da baixa remuneração e da desestruturação do plano de carreira dos servidores já não bastassem.

Depois de proclamada a “Pátria Educadora”, ao raiar do primeiro dia de seu novo mandato presidencial, o novo governo passou a ser questionado por uma série de entidades acerca do planejamento das ações necessárias para a consecução deste vago propósito. Apenas aos 22 de abril de 2015 fora divulgado, em resposta, o documento que apresentaria o que se pretendia diretrizes de um projeto nacional de qualificação do ensino básico, levando o título de “Pátria Educadora: a qualificação do ensino básico como obra de construção nacional”[7]. Mas uma informação que perigou passar desapercebida chamou-nos a atenção: o documento fora elaborado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, e não pelo Ministério da Educação. Mero detalhe o fato de o planejamento de ações de educação não ser elaborado por educadores? Certamente não! A prioridade das prioridades, para o governo federal, no final das contas é o mercado, e não a educação.

Só posso crer que a educação seja efetivamente uma prioridade, para o governo federal, se garantidos estivessem 10% (no mínimo) do PIB para a educação, do que depende o fim dos contingenciamentos, da imediata revogação das medidas de ajuste fiscal e da mudança de prioridades no uso do erário, com o fim da transferência de fundos públicos para setores privados via pagamento dos juros da dívida pública.

A “Pátria Educadora”, cujo governo, por meio do Ministério da Educação, não negocia com a categoria dos docentes federais há mais de um ano (a última negociação com o governo ocorreu em abril de 2014!), está às vésperas de uma greve nacional dos docentes federais que será deflagrada a partir de 28 de maio, contra a destruição da educação pública e da carreira docente, esta sob ameaça de extinção (com a iminência de contratações precarizadas via OS’s)!

Antes de discutirem se devem ou não parar suas atividades, a fim de tentar reverter este quadro, servidores foram surpreendidos, no início do ano letivo, com a impossibilidade flagrante de iniciarem as aulas (como o que ocorrera na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, por exemplo), tendo sido paralisados pela nova onda de choque neoliberal. Já contando com a adesão de 36 universidades federais (das 64 IFES existentes), em 22 estados, que aderiram ao indicativo de greve (de acordo com o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior – ANDES-SN, até o dia 14 de maio), a única certeza é a de que, seja como for, as IFES vão parar, ou pela mobilização dos trabalhadores em luta, ou por falência múltipla de órgãos!

 


[2] O texto integral pode ser acessado no link: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Mpv/mpv664.htm .

[3] O texto integral pode ser acessado no link: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Mpv/mpv665.htm .

[4] HOBSBAWM. Era dos extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Cia. Das Letras, 1995, pp. 90-112.

[6] O texto integral pode ser acessado no link: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12772.htm .

Estruturas oligárquicas e aspirações democráticas no complexo mundo das universidades brasileiras

“Nossas democracias estão amputadas e sequestradas…”

José Saramago

 

Autoritarismo nas universidadesDou início a essa reflexão recordando a advertência feita pelo escritor José Saramago de que a democracia estaria sendo concebida, pelas sociedades contemporâneas, tal qual uma “Santa d’Altar”, ou seja, não se tem preocupação alguma em defini-la, senão em cultuá-la: trata-se de uma referência e não mais do que isso. Não se duvida de sua existência nem de seus milagrosos poderes, mesmo porque a dúvida, em termos religiosos, é inimiga da fé; e tampouco se critica a Santa, que é só virtudes.

O moderno conceito de democracia, idealizado no decurso dos séculos XVII e XVIII e plasmado pelas revoluções europeias de 1848, principiadas nas mais importantes universidades francesas e propagadas em seguida por toda a Europa, convertido de um conjunto de aspirações e proposituras em dogma, dera lugar a uma espécie de catatonia irreflexiva incapaz de pensar sua perene e inevitável inconclusão nas sociedades de classe.

A igualdade jurídica, pedra angular deste conceito, frente às desigualdades econômicas segue restringindo-se aos códigos sem que exista concretamente no mundo das práticas sociais onde as diferenças são explicadas pela ideologia do “mérito”, cosmovisão que inscreve as forças sociais dominantes e que, em termos primários, toma os fenômenos da pobreza e da miséria como meras escolhas morais.

E se o exercício da cidadania é o exercício da política, tendo a política como objetivo – desde sua matriz aristotélica – a promoção do interesse público, sua consecução é que permite a existência de direitos e, seu pleno gozo, de cidadania; quando restringida a poucos e negada a muitos – âmbito de relações clientelares cerradas aos interesses públicos – inexistem direitos, tomando-lhe o lugar os privilégios de que se valem os segmentos de sociedade mais abastados na divisão do trabalho social. Resulta que numa sociedade de privilégios, e não de direitos, não há cidadania, tampouco cidadãos.

Considero este percurso introdutório necessário, uma vez que a tarefa é a de pensar a democratização da universidade em uma sociedade de privilégios, clientelismos, favoritismos e onde o empreendimento neoliberal vem recobrando força e vigor no processo de desmonte de direitos, radicalizando o assédio de interesses privados sobre os fundos públicos, historicamente sob disputa.

Se “a universidade é uma instituição social que exprime e reflete, de modo historicamente determinado, a sociedade em que está inserida” (DUARTE; RAMPINELLI, 2005, p. 30), nessa tessitura trata-se, a democratização da universidade, não de uma impossibilidade, mas de um processo complexo e lento em função de sua existência em sistemas sociais oligárquicos e onde vigoram estruturas autoritárias de poder. Trata-se do “caráter não igualitário da comunidade universitária”, já identificado por Darcy Ribeiro (1978, p. 231).

Por sua vez, o autoritarismo instalado em suas estruturas mais elementares tende a converter o conhecimento em instrumento de sua permanência, despolitizando seus ambientes por meio da degeneração de suas funções políticas, a saber: do seu comprometimento com interesses coletivos e não particulares.

Nesses termos, a herança histórica proveniente de seu período formativo, entre os séculos XII e XIII no ambiente tardio-medieval centro-europeu, ou seja, o legado de feudais e verticalizadas relações entre mestres e discípulos; passando pela cisão entre vocações políticas antagônicas no séc. XIX: como corte ou república; se soma no Brasil às heranças do escravismo colonial, aos particularismos, clientelismos e favoritismos na produção da perene indistinção entre público e privado – marcando o domínio do público pelo privado -, conformando uma universidade pouco inclinada às mudanças e tendendo a reafirmar o autoritarismo e a obediência, o mandonismo, o patrimonialismo senhorial e as contradições sociais que, diluídas no cotidiano, passam a ser lidas como signos indistintos da normalidade.

Para Marilena Chauí (2001, p. 120), a universidade, expressão da “realidade social das divisões, das diferenças e dos conflitos”, não se assume de tal forma; comumente apresenta-se como democrática e atenta à diversidade, por meio de um léxico eivado de liberalismo político e pouquíssimo capaz de transcender o plano discursivo. “O que é angustiante é a universidade querer sempre esconder isso e deixar que só em momentos específicos – por exemplo, a eleição para reitor e a discussão de um estatuto – tais coisas aflorem”.

Não que as universidades não estejam sob disputa entre aqueles que demandam e lutam por democracia e as oligarquias nela apoderadas e a quem só interessa uma democracia de caráter retórico. Pelo contrário, tendo sido o laboratório no qual fora criado o moderno ideal democrático, a universidade converteu-se em palco de lutas históricas no ambiente europeu de 1848 que deflagrou a “Primavera dos Povos”. Já no recém-parido século XX, sediou na Córdoba de 1918 o movimento pela democratização de suas estruturas (por meio da participação dos estudantes nas instâncias da política universitária e da criação de cátedras livres para os docentes), que rapidamente se alastrou por todo o ambiente latino-americano. Pouco mais de meio século depois, a luta por democracia na América Latina fez com que novos choques, contra estruturas oligárquicas e seus manejadores, movessem parte significativa da comunidade acadêmica contra as ditaduras militares de segurança nacional que varreram o subcontinente perseguindo professores, alunos e funcionários (vítimas costumeiras de detenções, torturas, desaparecimentos forçados e execuções) e chegando, em muitas dessas realidades, a intervir política e até mesmo pela via da ocupação armada (com tropas e tanques) em unidades de ensino.

O processo de redemocratização dessas sociedades deveria passar também pela democratização de suas universidades, onde as bandeiras da participação do alunado e de técnicos-administrativos, em iguais condições que docentes em seus processos decisórios internos, pareciam dar a tônica para o que seria uma revolução universitária que, no decorrer dos processos de abertura política nas distintas realidades latino-americanas, jamais se processou. Isso porque, segundo Gilmar Rodrigues, Valdir Alvim e Waldir José Rampinelli (2005, 17), apesar de ter havido mudanças, elas foram pactadas “por cima”: “Não sem razão, os regimes democráticos encontram-se hoje cada vez mais desacreditados e as eleições universitárias cada vez mais viciadas”.

Ainda assim, a vida universitária seria tal qual dissera José Carlos Mariátegui: corpo onde habitaria o “espírito novo” e revolucionário que, no entanto, digladiar-se-ia com os fantasmas do atraso encarnados em suas monolíticas estruturas de poder.

Como microcosmo da realidade social, na universidade se apresentam os dilemas e contradições sociais que devem mover o trabalho acadêmico a fim de sua superação, por meio da produção de conhecimentos, reproduzindo-se, no processo, todas as contradições sociais no ambiente universitário. O mesmo pode-se dizer quanto aos elementos da superestrutura ideológica, provenientes de ódios diversos de classe e que habitam também seus espaços: as justificativas que tendem a naturalizar a exploração e as desigualdades.

Numa sociedade cindida por abissais contradições, forças sociais dominantes tendem a reivindicar, nas hierarquias universitárias, espaços de poder institucional equivalentes àqueles que detêm na sociedade, a exemplo do que moveu o processo de criação das primeiras universidades brasileiras no séc. XIX, servis aos interesses dos filhos das oligarquias brancas e que reivindicavam uma tradição cultural europeia.

Por isso as liberdades são tão perigosas para aqueles que escalam, como alpinistas acadêmicos, as hierarquias da administração universitária; e por isso aqueles que lutam por um novo ordenamento são perseguidos, sobretudo quando defendem novas formas de gestão que impliquem em desapoderar aqueles que não abnegam do mando político que têm sobre seus pares.

Mas se é a universidade incumbida dessa hercúlea tarefa, o atendimento das demandas daqueles que não têm direitos deve ocorrer, primordialmente, na universidade.

Para isso, a própria democracia burguesa, concebida entre os séculos XVII e XVIII a partir da díade “liberdade / igualdade” não nos serve dados os seus caracteres abstratos e restritivos; é preciso tornar simétricos os processos decisórios e equânimes os colegiados e comissões, implementar formas intensivas de socialização do conhecimento desde sua construção, de gestão participativa e comunitária dos problemas da universidade, da alocação de seus recursos e da concepção de seus destinos, ou mesmo aquilo que Boaventura de Souza Santos (1994) chamou de“anarquia organizada, feita de hierarquias suaves e nunca sobrepostas”.

Em seus processos decisórios, no entanto, sua estrutura atual nega direitos e reafirma privilégios determinando que diretores de unidades universitárias e reitores sejam escolhidos entre professores, conforme determina a Lei 9394/96 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), na proporção de 70%; tendo poder reduzido na definição dos rumos da universidade aqueles que são considerados, segundo o mantra há muito entoado, “transitórios”, incapazes de contemplar o tempo da longa duração por estarem acorrentados aos seus interesses imediatistas. Como se a categoria docente não tivesse também interesses imediatos, como se técnicos e estudantes não existissem permanentemente na universidade e como se de longa duração não fossem os seus interesses enquanto categoria.

A luta pela construção de sistemas paritários deve ser encampada não apenas numa frente interna às universidades, mas articuladamente travada também no plano nacional em razão dos constrangimentos legais que ameaçam sua implementação e funcionamento inscritos no artigo 56, parágrafo único, da LDB e cujo teor é de saída contraditório ao conceber como possibilidade de “gestão democrática” um sistema em que docentes ocupam 70% dos assentos em órgãos colegiados e comissões, valendo a mesma proporção para a escolha de dirigentes; in verbis:

 

“As instituições públicas de educação superior obedecerão ao princípio da gestão democrática, assegurada a existência de órgãos colegiados deliberativos, de que participarão os segmentos da comunidade institucional, local e regional. Parágrafo único. Em qualquer caso, os docentes ocuparão setenta por cento dos assentos em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e modificações estatutárias e regimentais, bem como da escolha de dirigentes.”

 

Não se trata apenas de um regramento contraditório em termos, mas contrário ao princípio da autonomia universitária estabelecido pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 207, que assim a define: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.”

Trata-se, mais amplamente, de uma luta pelo reconhecimento de que funcionários técnico-administrativos e discentes são iguais a professores, em termos de gozo de direitos e na capacidade de vocalização de seus interesses, ainda que na comunidade acadêmica seus papéis sejam distintos.

O critério paritário, ou seja, aquele no qual as eleições e a composição de colegiados superiores e comissões obedeçam a proporção de 1/3 para cada categoria, tem sido utilizado, em parte, pelo próprio governo federal, como atesta a lei nº 11.892 de 2008 que criou 38 Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFETS)  e que assim definiu o processo de consulta para reitores:

 

“Art. 12. Os Reitores serão nomeados pelo Presidente da República, para mandato de 4 (quatro) anos, permitida uma recondução, após processo de consulta à comunidade escolar do respectivo Instituto Federal, atribuindo-se o peso de 1/3 (um terço) para a manifestação do corpo docente, de 1/3 (um terço) para a manifestação dos servidores técnico-administrativos e de 1/3 (um terço) para a manifestação do corpo discente”.

 

Some-se a isso o fato de, em 2013, 44% das universidades federais já utilizarem sistemas paritários nas consultas às 3 categorias para eleições de diretores e reitor, à revelia do que reza a LDB; apesar de nos conselhos centrais seguirem composições assimétricas.

ParidadeMas é preciso sublinhar que, na contramão das mudanças, cerca de 120 professores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) denunciaram ao Ministério Público Federal, recentemente, ilegais as decisões tomadas pelos conselhos paritários ali implementados, saindo em defesa draconiana do fiel cumprimento da LDB. O precedente revela a necessidade de que se reconheça o imperativo da luta pela revisão dos termos da Lei 9.394 de 1996, especificamente pela revogação do parágrafo único de seu artigo 56 e, mais amplamente, de uma reforma universitária que prime pela efetividade de práticas democráticas.

Tamanho desafio deve ser enfrentado pelas entidades que representam os interesses de todas as categorias que compõem a comunidade universitária: o ANDES-SN (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior), a ANDIFES (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), a FASUBRA (Federação dos Sindicato de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil), o movimento estudantil organizado e setores organizados da sociedade civil, para que decisões paritárias não sigam fragilizadas e sob perene risco de serem judicializadas e reformadas, seguindo a tendência da conversão de questões políticas em problemas legais, silenciando com isso as discussões políticas quando deslocados os problemas da comunidade universitária para os tribunais, impenetráveis ao debate público.

Some-se a isso a falta grave de consenso em meio à categoria docente quanto à paridade, um notável grau de despolitização que fere de morte a comunidade acadêmica e que culmina em fóruns esvaziados para discussão desses temas, bem como o histórico abismo que aparta a universidade brasileira de seu entorno social.

Não se pode, contudo, vincular a ideia de democracia universitária pura e simplesmente à configuração dos processos decisórios que definem seus quadros dirigentes, colegiados e comissões. Edward Said (2004, p. 41) já alertara para a necessidade de implementação de práticas democráticas para muito além da realização de eleições: “Por mais que a pessoa seja a favor das eleições não se pode fugir da verdade amarga de que elas não produzem automaticamente democracia ou resultados democráticos”. Apesar de a adoção de um sistema paritário para a realização de processos eleitorais, bem como para a composição e funcionamento de órgãos e instâncias colegiadas na universidade, serem importantes passos em direção à democratização das universidades, não constituem o todo.

Parte do problema passa pelo uso de espaços coletivos para a articulação de interesses pessoais. Não se pode falar em democracia representativa quando representantes de uma categoria, num Conselho Universitário, congregações ou quaisquer colegiados, votam de acordo com sua posição pessoal e sem consultar suas bases, como se seu mandato lhes conferisse o direito de impor sua vontade sobre seus pares. Se a política é o espaço do dizer, deve ser também o lócus do ouvir e, para isso, a “ágora” precisa ser ocupada por muitas vozes, desde reuniões de colegiado de cursos às assembleias gerais.

Isso porque práticas democráticas são construídas em relações sociais, no cotidiano onde o espaço público, como nos recordara Hannah Arendt (2002, p. 7 a 33), é tal qual a “ágora”: o espaço do dizer a política, portanto da política como ato de falar, ou seja, de vocalização de interesses dentre os pares que não apenas ouvem, mas tomam parte da política como “diálogo”. Para que isso ocorra, nem a democracia da “polis” e nem aquela que concebeu o abstrato “homem universal” do iluminismo nos interessam: é preciso uma democracia de alta intensidade para indivíduos concretos, plenos, em condições simétricas e isonômicas para a vocalização de seus interesses; e não se procede tamanha mudança sem que no ambiente universitário sejam implementadas práticas com vistas à superação de muitas das contradições vigentes em sociedade, sabendo-se da tendência inexorável de que elas sejam reproduzidas em seus ambientes. Significa lutar contra a lógica privatista e a implementação de cursos pagos que evidenciam os cortes de classe, raça e gênero em seus ambientes, contra a discriminação racial, contra a xenofobia, o sexismo, o machismo, a homofobia e a transfobia, a intolerância política, geracional e de classe, o assédio moral e tantas outras práticas inclusas na vigente cultura de ódio que marca a ferro o mundo da expropriação da própria humanidade daqueles considerados subalternos.

Mais ainda que isso, não se trata apenas de viabilizar meios para uma participação efetiva das três categorias que compõem a universidade, internamente, nos seus processos decisórios e em seu cotidiano; mas de projetá-la para além de seus muros e grades em direção à sociedade que demanda conhecimento crítico e transformador da realidade e que também deve participar de seu cotidiano. Para isso é necessário cunhar uma nova cultura universitária onde a juventude pobre e excluída, além de outros perfis comumente desprezados pela universidade pública, sejam incorporados ao ambiente universitário. Nessa nova cultura universitária não caberia mais o preconceito daqueles que costumem caracterizar atividades de extensão como de menor importância, sendo seus realizadores classificados como docentes de segunda categoria; a integração do tripé ensino-pesquisa-extensão não pode se limitar às aparências: é preciso fazê-la no mundo da prática!

É por isso que quando jovens pobres são expulsos de um dos nossos campi, como o que ocorrera em novembro do ano passado no Campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo (de acordo com registro de ocorrência policial lavrado pelo 4º Distrito Policial de Santos) temos a obrigação moral de denunciar e de cobrar providências, tanto quanto nos solidarizarmos aos alunos que vêm sendo perseguidos por meio de procedimento policial (em trâmite na Polícia Federal), por terem denunciado o ato gravando sua indignação em uma porta, que parece importar mais que os pobres meninos escorraçados da universidade que é também deles.

Enquanto em seus corredores, ambientes estudantis, de organização de técnicos-administrativos em luta por direitos e salas onde docentes experimentam saberes transformadores da realidade, habita o “espírito novo” dito por Mariátegui; em suas estruturas mais profundas segue incorporado o espírito autoritário que se vale das desigualdades para sua perpetuação. Parte da luta pela transformação dessas estruturas é a destruição dos estereótipos que identificam práticas democráticas, na administração pública, como ineficazes; ao passo da associação entre eficácia e autoritarismo, do que resulta uma fragilíssima justificativa para as tão comuns gestões autoritárias, insensíveis às demandas daqueles que não têm direitos e enclausuradas em seus gabinetes como se fossem torres de um impenetrável castelo, devidamente fortificado contra as “classes perigosas”.

Quando os destinos da universidade são geridos de forma autoritária os lugares da “ágora” são cerceados, os que ousam dizer a política são amordaçados e a recusa da política, enfim, implica no fim da própria política, na instituição do favor e de demais elementos que constituem o âmbito privado impondo-se determinantemente sobre o interesse público. É neste ambiente que a exaltação da técnica e a satanização do pensamento crítico, acusado de ideológico, opõem academia e política em nome da falácia da “neutralidade”, esta que sustenta os elementos da conservação.

“Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?” Lembro-me do trecho da música de Tom Zé pichado no muro da Reitoria da Universidade de São Paulo, nos idos de 2007, durante uma das mais longevas e politizadas ocupações estudantis de sua história recente, movendo-se contra as truculentas e desastradas políticas do Estado de São Paulo para a educação superior pública na gestão do então governador José Serra. Nos muros de muitas universidades brasileiras a frase segue fazendo sentido. Isso porque gestões autoritárias educam historicamente pela coerção e quem obedece, tal qual o modelo educacional ovacionado pelos saudosos da ditadura militar, obedece porque tem medo (o que inclui o medo de não se formar, não obter bolsa, não ingressar na pós-graduação, não obter bolsa de novo, não publicar, não concursar-se professor, não obter bolsa mais uma vez, não ascender na carreira docente e, para que tudo isso seja viável, não desagradar àqueles em condição de poder). Atualmente, o medo vem sendo progressivamente manejado por meio de procedimentos policiais, instrumento para persecução da militância estudantil na lógica ampliada da criminalização dos movimentos sociais e de quaisquer segmentos despossuídos em luta por direitos. A educação para o medo, nos recordam Duarte e Rampinelli (2005, p. 40 e 41), forma seres acríticos, submissos e que se calam, ou seja, que abdicam da palavra, da própria política. Na ausência do pensamento crítico, a universidade não apenas deseduca politicamente seus alunos: ela deixa de formar intelectuais, ocupando-se da produção em série de analistas convictos de sua própria neutralidade, de pilhas e pilhas de papers (que dificilmente serão lidos) e páginas e páginas de currículos.

Para a gestão autoritária o interesse público sequer é percebido e a democracia que lhe serve é uma espécie de “dança cortesã” para a qual são ensaiados os passos e, em forma, apresenta-se tão somente o formalismo vazio que encena a participação coletiva, como rezam seus regramentos. Não raras vezes questões vitais para os cursos e para a comunidade acadêmica acabam decididas, senão por um, por dois ou três membros de uma espécie de “confraria para iniciados”, cujo rito iniciático envolve pactos de fidelidade e conveniência; no entanto, quando publicizadas, assumem a forma (e tão somente a forma) de escolhas coletivas, seguindo os regimentos no compasso das burocracias e sem que escolhas coletivas tenham verdadeiramente existido. Em termos concretos, como nos recordam Duarte e Rampinelli (2005, p. 32): “democracia diz respeito também à passagem do poder privado e despótico, fundado na vontade pessoal e na arbitrariedade do chefe, para o poder como discussão coletiva e deliberação pública sob o domínio das leis”.

A coletividade deve se apresentar de forma organizada, para muito além da habitual mise-en-scène, na defesa e luta pelos direitos de suas três categorias contra qualquer tipo de autoritarismo. Uma universidade democrática, em uma sociedade eivada de contradições, depende de mobilização perene e de capacidade de enfrentamento na luta por direitos, em franco processo de desmonte dada a recente intensificação das reformas neoliberais e o sempre crescente individualismo associal absoluto.

No que concerne à carreira docente, as condições de trabalho de professores do ensino superior no Brasil vêm sendo sobredeterminadas por um sistema de ensino superior servil aos interesses dos grandes conglomerados econômicos da educação que, convertendo o ensino em negócio na lógica do lucro privado, têm contribuição quase nula para o desenvolvimento científico nacional. Sendo raquítico seu protagonismo na senda da pesquisa, a avassaladora maioria dessas instituições faz agravar ainda mais a precarização do trabalho docente reduzindo o professor a condição de mero “dador de aulas”, com carga horária inadequada aos padrões de excelência acadêmica e turmas com um número de alunos muitíssimo superior ao ideal, restando-lhe quase nenhum tempo para o desenvolvimento de pesquisas e de práticas extensionistas, para salários sofríveis e relações laboriosas onde o “assédio moral” não é nada incomum. Nesse tipo de ambiente generalizou-se ainda a prática da demissão de docentes quando estes tenham obtido seu doutoramento, a fim de que as universidades privadas paguem os menores salários possíveis.

A lógica privatista, na confusão reinante entre público e privado, adentra a universidade pública por meio das fundações ditas de apoio à pesquisa, do dirigismo das agências públicas de fomento à pesquisa e os critérios produtivistas que vêm impondo, o carreirismo que solapa o pensamento crítico, cada vez mais raro, a oferta de cursos pagos que ora chega da extensão à pós-graduação (tanto lato quanto stricto sensu), estes louvados como instrumentos para a superação da crise em que se encontra mergulhada a universidade pública no Brasil, vitimada nos últimos e dramáticos meses pelo gravíssimo contingenciamento de verbas e o brutal descompasso entre a expansão do ensino superior público e uma dotação orçamentária que não tem crescido no compasso da demanda.

Os interesses privatistas se valem de leis como a 10.973/2004, que versa sobre incentivos à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo; bem como a 11.079/2004, que institui novas normas gerais para licitação e contratação de parceria público privada, as “PPP’s”; do sistema PROUNI que acentua o processo de transferência de fundos públicos para o setor privado da educação superior (que também se vale de uma série de isenções fiscais e anistias); e, mais recentemente, da decisão do Supremo Tribunal Federal, emanada nos autos da Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 1.923, proposta contra a Lei 9.637/98 e que autoriza contratação, pela Administração Pública, de prestadores de serviços via Organizações Sociais sem concurso público, sem estabilidade funcional e sem regime de dedicação exclusiva ao ensino, pesquisa e extensão.

A universidade pública (vocacionada à produção de conhecimento e onde estão alocados, ainda, os meios para a consecução da pesquisa científica no Brasil) estaria, com isso, em consonância com o mercado e com os interesses da iniciativa privada, esta que, por sua vez e tanto na esfera produtiva quanto educacional, pouco ou nada investe em pesquisa.

Trata-se da já conhecida disputa pelos cofres públicos, frente à qual as esferas da alta política assumem claramente a função de privilegiar grupos privados por meio de estímulos a programas direcionados exclusivamente aos interesses do mercado, o que afronta o princípio da autonomia universitária tanto quanto subverte os objetivos gerais da educação superior pública uma vez que, na lógica da apropriação privada da pesquisa sediada nas universidades públicas, o conhecimento não resulta transferido à sociedade que custeia, por meio de impostos, a própria universidade; mas é convertido em mercadoria e vendido a ela. Determinam-se, com isso, os poderes que definem os rumos da universidade: o mercado, interessado em manter cursos com maior apelo comercial e que, com isso, sejam capazes de arrecadar mais dividendos.

Não que a presença de grupos que representam interesses do mercado, na universidade pública, seja nefasta, sobretudo em cursos ligados a área de negócios; a pluralidade de ideias é que deve alimentar o ambiente acadêmico e dar sentido ao próprio conceito de universidade. Formar o alunado para o mundo e, nele, para o mercado de trabalho, passa inexoravelmente pelo desenvolvimento de habilidades técnicas, desde que acompanhadas de conteúdos humanísticos que capacitem o pensamento crítico sobre a função social da técnica em sociedades profundamente desiguais. O mesmo pode-se dizer quanto a necessidade de estabelecimento de parcerias com empresas comprometidas com a inserção profissional dos discentes, sem que com isso tenham que se submeter a condições precarizadas de trabalho. O problema se apresenta quando interesses privados se impõem sobre a missão histórica da instituição; mais ainda quando em nome desses interesses determinados grupos se fecham ao pensamento crítico, tentando extirpar de seus ambientes quaisquer dissidências.

Com isso, o vetor do conhecimento acadêmico, passando a ser o vetor dinheiro, é impedimento dos mais graves à democratização do ambiente universitário.

Mas não é apenas o processo de desmonte de direitos históricos dos trabalhadores da educação, a precarização das condições de trabalho e o afã de muitos em transformar unidades de ensino, nas universidades públicas, em balcões de negócio, que preconizam a penetração do ideário neoliberal no universo acadêmico: há ainda seu revestimento no plano ideológico. Para Marilena Chauí (2001, p. 23) este procedimento assume a forma das proposituras pós-modernas, batendo-se contra os próprios fundamentos da modernidade: “as ideias de racionalidade e universalidade”, tomados como mitos totalitários exógenos à nossa realidade. É o tempo do individualismo associal e da incapacidade de indivíduos egocentrados perceberem-se como partícipes de grupos que mantêm interesses comuns.

Nas universidades, o individualismo se expressa na tríade elementar do carreirismo: “minha pesquisa”, “minha bolsa”, “meu currículo”, que movem as preocupações centrais de parte significativa de professores desinteressados pelas bandeiras de sua própria categoria, avessos ao movimento sindical e desencarnados da universidade, alienados das lutas que vêm sendo travadas em defesa de seu caráter público, gratuito e democrático.

Para Carlos Nelson Coutinho (2004, p. 329), “… nesse quadro, vem a afirmação de que a luta de classes, a luta mais universal, perdeu o sentido, não existe mais. Com maiores ou menores mediações, o pós-modernismo é a super estrutura ideológica da contra-reforma neoliberal”.

Diz-se, com isso, que não há luta de classes e que sequer classes sociais existem, tampouco sociedades; em seu lugar há indivíduos e tão somente isso.

Ao dizer que não há contradições, elas jamais deixarão de existir. Não dizer, resulta no mesmo! Mas é no silêncio que ecoam tanto o medo quanto a conveniência, reverberando em espaços vazios, despolitizados e que carecem urgentemente serem ocupados. E a tarefa é de fato premente; isso porque esses e muitos outros caracteres nos permitem identificar uma tendência geral à reafirmação dos traços autoritários e oligárquicos que constituem o sistema universitário nacional desde os seus fundamentos, enquanto a dureza dessa realidade recebe o revestimento fantasioso da retórica democrática, desde que não haja democracia de fato e que a Santa não seja demovida de seu altar, mesmo na impossibilidade de operar qualquer tipo de milagre.

 

Referências bibliográficas:

 

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ARENDT, Hannah. O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

CHAUÍ, Marilena. Escritos sobre a universidade. São Paulo: Edunesp, 2001.

COUTINHO, Carlos Nelson; “Intelectuais, luta política e hegemonia cultural”; in: MORAES, Denis (org.). Combates e utopias: os intelectuais num mundo em crise. Rio de Janeiro: Record, 2004.

DUARTE, Adriano Luiz; RAMPINELLI, Waldir José; “Universidade, sociedade e política: algumas considerações sobre a relação entre público e privado em tempos de barbárie”; in: ALVIM, Valdir; RAMPINELLI, Waldir José; RODRIGUES, Gilmar (org.). Universidade: a democracia ameaçada. São Paulo: Xamã, 2005.

RIBEIRO, Darcy. A universidade necessária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

SAID, Edward; “O papel público de escritores e intelectuais; in: MORAIS, Denis (Org.). Combates e utopias: os intelectuais num mundo em crise. Rio de Janeiro: Record, 2004.

SANTOS, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice. Porto: Afrontamento, 1994.

O desfecho da greve das IFES

De 13 a 16 de oandesutubro de 2015, após mais de 4 meses paralisados, docentes das instituições federais de ensino superior (IFES) encerravam uma das mais longas greves da categoria em toda a sua história, durante uma das mais graves crises já atravessadas pela educação federal no Brasil. Deflagrada no dia 28 de maio, o movimento chegou a contar com a paralisação de mais de 50 IFES de um total de 63, no decurso de 139 dias em que as negociações praticamente não avançaram.

O então ministro, Renato Janine Ribeiro, em nenhum momento recebeu o Sindicato Nacional (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior – ANDES-SN), entrando para a história como o primeiro ministro da educação que não recebeu representantes da categoria em décadas. Só depois de ocupado o corredor de acesso ao seu gabinete é que no dia 24 de setembro se comprometeu a receber o comando de greve, ainda assim para uma reunião que só deveria ocorrer no dia 5 de outubro. Como sabemos, o encontro jamais aconteceu pois seria ele demitido logo no dia 30, após 5 meses à frente da pasta e em favor da reforma ministerial que reconduziu Aloizio Mercadante ao MEC, proveniente da Casa Civil.

E enquanto ministérios são loteados em nome das alianças que prometem manter o governo federal no poder, acuado pelas histéricas ameaças de impeachment, denúncias de corrupção e a articulação dos setores mais retrógrados do espectro político nacional, o abismo em que mergulham as universidades federais é dos mais profundos em décadas!

Não bastassem as primeiras medidas de ajuste fiscal que antecederam a greve, os mais brutais ataques aos trabalhadores da educação ocorreriam no seu próprio decurso. Como sabemos, o contingenciamento de verbas para os serviços públicos ganhou forma no Plano Levy, por meio de uma nova política tributária, cortes com gastos públicos e redução de benefícios trabalhistas tendo como meta o contingenciamento de R$ 122 bilhões, dentre os quais R$ 66,3 bilhões seriam obtidos, ainda em 2015, graças aos cortes nas contas públicas, incluindo repasses de verbas para a educação federal.

Os objetivos anunciados deveriam cobrir e compensar, ao mesmo tempo, o déficit público de 30,5 bilhões e a retração no PIB sem que se tocasse no ovo da serpente: a transferência de 45,11% do PIB para o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública, ou seja, a apropriação dos fundos públicos por interesses privados. E enquanto isso, ao passo dos brutais cortes orçamentários que vêm sofrendo a educação pública, o governo segue investindo dinheiro público em educação privada, tomando partido claro na disputa pelos fundos públicos e beneficiando grupos que, na mercantilização da educação, já cotizam inclusive em bolsas internacionais.

No próprio decurso de uma greve nacional das IFES movida, dentre outros motivos, contra as políticas de ajuste fiscal e o decorrente contingenciamento de verbas para a educação pública superior, as universidades federais acabaram novamente atacadas por uma segunda onda de choque neoliberal, por meio de novas medidas de ajuste (novos cortes no orçamento público) sob pretexto de elevar a arrecadação em 32 bilhões e com a justificativa de cobrir o suposto déficit da previdência.

A esperança do governo federal é de que o pacote, que inscreveu 16 medidas, possa levar à arrecadação de cerca de 26 bilhões por meio de cortes dos gastos para 2016, com o intuito de sanar o déficit fiscal nas contas públicas e impactando diretamente programas sociais e serviços já combalidos com as primeiras medidas do Plano Levy (atualizado na versão “Levy-Calheiros”). Em termos de cortes orçamentários, trata-se de um contingenciamento ainda mais rigoroso que o primeiro, incluindo a suspensão de concursos públicos até o fim de 2016, essenciais para a reposição do enorme déficit do quadro permanente das universidades; e o fim do abono-permanência, pago aos servidores que, mesmo tendo cumprido todos os critérios para a aposentadoria, optam por permanecer no trabalho, medida que tende a aumentar o número de pedidos de aposentadoria, ampliando ainda mais o déficit no quadro de docentes e técnicos-administrativos nas universidades federais.

O pacote ainda inscreve uma mudança no reajuste proposto pelo governo para o funcionalismo público federal, de 10,8%, escalonado em dois anos e, sublinhe-se, abaixo do índice inflacionário que já se aproxima dos dois dígitos. Previsto incialmente para janeiro, entraria em vigor apenas em agosto quando deve ser paga sua primeira parcela, mais defasado ainda pelo processo inflacionário em curso. Na prática, a “concessão” serviria de argumento para que novas reivindicações salariais não fossem acolhidas até pelo menos 2017!

As medidas inscrevem, como já dito, ataques frontais e sem precedentes à classe trabalhadora geral, ao funcionalismo público e às instituições federais, por meio da elevação da carga tributária, do congelamento dos salários de funcionários públicos, da suspensão de novos concursos, de cortes em gastos com políticas sociais e do desmonte dos serviços públicos, impactando diretamente nas condições de trabalho nas IFES.

A política macroeconômica do Governo Federal, de acordo com as medidas anunciadas, sangra os interesses dos trabalhadores a fim de garantir ainda mais a lucratividade do capital. Ao passo da intensificação do processo de desmonte do caráter público e gratuito das universidades federais, as estratégias do governo para a educação superior advogam por um modelo privatista que já se vale das Parcerias Público-Privadas e agora almeja beneficiar-se de contratações via organizações sociais e da implementação de cursos pagos como alternativas à ausência de recursos públicos para o financiamento das universidades.

Voltando às negociações, se é que se pode caracterizar um monólogo como tal: o MEC quando se pronunciou, no decurso de praticamente toda a greve, foi para entoar o mantra de que não teria como se posicionar em negociações que implicassem em questões financeiras, atribuição do Ministério do Planejamento, que por sua vez se esquivou o quanto pôde do debate. Quem, no Governo Federal, se ocupa então da crise profunda que afeta as IFES?

O fato de não haver quem se ocupe da crise não quer dizer que ela não tenha solução. A reversão desse quadro passa inevitavelmente pela defesa que fazemos do fim imediato da reforma fiscal e do Plano Levy-Calheiros, da auditoria cidadã da dívida pública e da implementação de uma reforma tributária progressiva, por meio da taxação das grandes fortunas. Seria um bom começo!

Mas para que se possa chegar aos céus há uma longa e íngreme “Escada de Jacó”! Isso porque, no âmbito federal, a luta dos trabalhadores das IFES inscreve uma extensa pauta que inclui a defesa perene do caráter público e democrático da educação, a luta por uma universidade socialmente referenciada, por um plano de carreira que garanta direitos permanentes (com piso adequado e tabela salarial com parâmetros definidos em lei), por condições adequadas de trabalho e políticas salariais que reponham perdas e recomponham o poder aquisitivo de servidores frente a inflação.

Para sermos mais específicos, implica na labuta pela reversão de um regime previdenciário que desde junho de 2012, com o adv
ento da Lei 12.658, retira do servidor o direito de receber valores integrais, implicando para aposentados e pensionistas até 75% a menos de seu salário na ativa; a revogação da Medida Provisória n° 664 de 2014, que restringe o acesso à pensão por morte e muda o cálculo da aposentadoria; da MP n° 665 que enrijece as regras para pagamento do seguro-desemprego e do abono salarial; a decisão do Supremo Tribunal Federal, emanada nos autos da Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 1.923 e que autoriza contratação, pela Administração Pública, de prestadores de serviços via Organizações Sociais sem concurso público, sem estabilidade funcional e sem regime de dedicação exclusiva ao ensino, pesquisa e extensão; da PEC 395/14, que permite a cobrança por cursos de extensão, pós-graduação lato sensu e mestrado profissional; bem como o sistema PROUNI que acentua o processo de transferência de fundos públicos para o setor privado da educação superior.

A saída de uma das mais longevas greves das IFES nos impõe a tarefa urgente de mantermos a mobilização, ou mesmo construí-la (para o caso das IFES que não aderiram ao movimento grevista) para as lutas que já se avolumam no horizonte do próximo ano: contra os cortes, contra a precarização, contra o desmonte de direitos, contra a lógica privatista e contra os cursos pagos!

Carta aos calouros ou bem-vindos à Pátria Educadora!

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Neste início de período letivo, os 228 mil estudantes que chegam às universidades federais por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), integram a massa de cerca de 7,8 milhões de estudantes matriculados em instituições de ensino superior (estimativa concebida a partir dos números de 2015), marcando um crescimento de 6,8%, na oferta de vagas, em relação a 2013. Desses estudantes, 82,3% são alunos de instituições privadas, o que significa que dentre 4 estudantes, 3 frequentam universidades particulares.

Outro importante dado é o aumento significativo na oferta de cursos de graduação que, disponíveis no ano de 2003 em 282 municípios, chegaram em 2014 a 792, impressionante crescimento de 180%. Em 2014, 78,5% das vagas ofertadas no ensino superior eram novas e, antes de seguirmos nos impressionando, saibamos que do total de 8 milhões, 90,2% referiam-se às universidades particulares.

Também houve crescimento da rede pública, em especial das universidades federais, mas com expressão muitas vezes menor e condições muitíssimo precárias em relação à rede privada.

O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), vigente de 2003 a 2012, foi responsável por um salto de 114 para 237 municípios atendidos por instituições federais de ensino superior (IFES). A expansão incluiu a criação de 14 novas universidades federais (que se somaram às 45 originadas entre 1919 e 2002), de 100 novos campi e, com isso, um aumento de 111% das vagas presenciais, inclusos os 2.428 cursos de graduação que passaram a ser oferecidos. As matrículas em cursos presenciais de graduação aumentaram em torno de 60% e, na pós-graduação stricto sensu em torno de 90%, enquanto as matrículas em cursos de graduação à distância cresceram 520%, sobretudo com a criação, em 2006, daUniversidade Aberta do Brasil (UAB).

Ainda assim, o programa fora concluído com resultados muito aquém daqueles previstos; as universidades não receberam sequer a metade dos investimentos acordados com o governo federal: em torno de 7 bilhões previstos. É preciso ainda explicitar que o crescimento não foi acompanhado adequadamente pelo quantitativo de docentes nas universidades federais, acrescido 44% no mesmo período (de 49,8 mil professores em 2003, para 71,2 mil em 2012, consistindo em 21.786 novas vagas para docentes, muitos dos quais acabaram ocupando o lugar até então preenchido por professores temporários, cujo número caiu 64%).

O descompasso vem resultando em turmas superlotadas, em número elevado de orientandos por orientador (em graduações que demandam trabalho de conclusão de curso, orientação laboratorial etc.) e em condições, portanto inadequadas para o trabalho docente e também de técnicos-administrativos.

De acordo com o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) a expansão não foi acompanhada da melhoria das condições de trabalho dos professores e nem da infraestrutura necessária das instituições de ensino; faltam professores, funcionários, laboratórios, insumos, recursos e instalações adequadas para a consecução da tríade: ensino, pesquisa e extensão.

Pouco mais de 3 anos após sua conclusão, verifica-se que a expansão foi, de fato, abortada. De acordo com o MEC, já em 2013, do total de 3.885 obras contratadas para o Reuni, apenas 62% (2.417) estariam concluídas e, portanto, 26% (1.022) ainda em execução. Com as medidas de ajuste fiscal anunciadas no raiar do sol da Pátria Educadora, em 2015, a paisagem que se vê é a de salas de aula lotadas e cercadas por prédios em construção, muitas dessas obras paradas e já tomadas pela vegetação; alunos alocados de maneira precária em escolas públicas e tendo aula até mesmo em containers de metal, dependendo da benemerência dos poderes locais (prefeituras, essencialmente); equipamentos e livros amontoados em corredores, sob risco de deterioração e à espera da conclusão de obras que de acordo com os ministérios da Educação e do Planejamento, não se sabe quando serão concluídas (conforme as denúncias feitas pelo ANDES-SN no dossiê “Na defesa da educação pública e de qualidade”; Dossiê Nacional 3, nov. 2013).

Os dados revelam não apenas o avanço da rede privada e como se deu o crescimento precário da rede pública, mas as prioridades do governo federal para a educação superior. Senão, vejamos: por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e do Programa Universidade para Todos(Prouni), acentuam-se as vultosas transferências de recursos públicos da educação para o setor privado. A destinação de verbas públicas para instituições particulares, por meio do Fies e do Prouni, em meio à crise e aos contingenciamentos que afetaram diretamente o MEC no último ano, apesar de terem levado à alteração das regras do Fies, que em 2015 reduziu a quantidade de alunos habilitados a obter financiamento do governo federal para se matricularem em instituições privadas, curiosamente levou ao aumento do orçamento previsto destinado à iniciativa, que saltou de R$ 12,3 bilhões, no ano anterior, para R$ 12,4 bilhões, aumento especificamente de R$ 117 milhões. Em 2013, o MEC, que executa o Fies, desembolsou R$ 5,8 bilhões para o programa e, em 2014, R$ 12,3 bilhões.

Vamos tentar acompanhar este raciocínio, por mais esdrúxulo que pareça: no ano de 2015, enquanto cortes de orçamento tolheram R$12 bilhões do MEC, o governo federal liberou R$ 17,7 bilhões para o Fies e renunciou arrecadação de R$ 970 milhões para o Prouni. Apenas em 2014, foram 1,9 milhão de alunos assistidos pelo Fies, o que equivale a cerca de 1/3 dos alunos matriculados em universidades privadas, recursos que poderiam ser usados para a garantia de mais vagas na rede pública.

Para que se possa ilustrar o cenário da privatização da educação superior no Brasil, de acordo com o Censo da Educação Superior 2010 – Resumo Técnico, entre 2001 e 2010 o setor público diminuiu de 13,2% para 11,7%, enquanto o privado aumentou de 86,8% para 88,3%, no mesmo período em que foi elevado o total de Instituições de Educação Superior (IES) de 1.391 para 2.378.

Sejam bem-vindos, portanto ao ensino superior público, num país de 200 milhões de habitantes e onde apenas 15% dos jovens em idade universitária – entre 18 e 24 anos – tem a chance de cursar uma graduação e com pequenas chances de fazê-lo em uma universidade pública. Bem-vindos à comunidade acadêmica como parte de uma de suas categorias constitutivas, ao lado de funcionários e professores. Sejam bem-vindos à luta por uma universidade democrática, gratuita (repito, gratuita), de qualidade e socialmente referenciada.

Em primeiro lugar, se alguém lhes disser que são privilegiados por terem ingressado à universidade pública e que fazem parte de alguma espécie de elite estudantil, isso simplesmente não é verdade! Conforme reza o artigo 205 da Constituição Federal de 1988, a educação é direito de todos e dever do Estado; tanto é que as instituições privadas de ensino superior (com quase nula contribuição para o conhecimento científico e para o desenvolvimento tecnológico nacional) só operam por concessão pública, reguladas pelo Estado a quem cabe a elaboração das diretrizes para a educação e em nome de um projeto de nação, trabalhando em prol do bem comum e não de interesses particularistas. Só se formos muito ingênuos para não perceber a intensa atuação dolobby das universidades privadas sobre nossa venal classe parlamentar e em nome de que interesses são elaboradas as políticas públicas nessas paragens.

Lembro-me das palavras do professor Octávio Ianni, quando eu era ainda aluno de graduação, na aula magna que proferiu para os calouros da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas daUniversidade de São Paulo: “- Vocês não são privilegiados por estarem aqui!”, dizia ele, ainda que na divisão social do trabalho, nos cortes de classe, raça e gênero, tenhamos nas universidades brasileiras a reprodução das brutais desigualdades e violências diversas que constituem a realidade social, como o ódio de classe, o racismo, a homofobia e a misoginia machista.

Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 50% das vagas no vestibular de 2016 foram destinadas para o Sistema de Reserva de Vagas (as cotas), podendo se candidatar a elas estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas e, obedecendo a Lei nº 12.711/2012, deste total, 50% das vagas foram reservadas a candidatos oriundos de famílias com renda igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita, além de negros e indígenas. Mas, ainda assim, proponho que olhem ao redor, nas salas de aula, ambientes laboratoriais e áreas comuns de suas universidades e vejam quantos alunos negros, pobres, trabalhadores e trabalhadoras, moradores das periferias, homossexuais e transexuais têm a oportunidade de frequentar a universidade pública. Vejam quantos professores negros, egressos do ensino público ou transexuais nós temos.

E por que então não são vocês privilegiados? Porque privilégios negam direitos, opondo interesses particularistas ao interesse público. É em função dessa antiga antinomia, já presente, no séc. IV a.C. na obra “A República”, de Platão, como deformação das estruturas político-sociais na produção de formas degeneradas de governo, que interesses privados distinguem-se dos interesses comuns. Não se trata da demonização do setor privado; mas do reconhecimento de que seus objetivos concorrem maiormente para a consecução do lucro de seus acionistas – a classe proprietária -; enquanto o universo da política deve estar voltado ao bem-estar de toda a sociedade – onde se incluem não apenas as classes dominantes, mas a massa de trabalhadores pobres. Logo, quando as instituições e práticas políticas mostram-se servis aos grupos que se alimentam das perenes desigualdades do capital, à revelia das demandas sociais, sobrepõem-se aos interesses coletivos aqueles que dizem respeito apenas aos extratos privilegiados de uma sociedade onde a cidadania jamais existiu.

E não podemos compactuar com isso, internalizar esta lógica, essencializando as desigualdades e irreflexivamente reproduzindo-as no ambiente acadêmico. A universidade deve ser o locus do pensamento crítico e em seus ambientes de emancipação das classes subalternas, de reversão da vigente cultura de ódio e de superação de todas as formas de violência que têm em seus princípios causadores a violência primal da expropriação de classe (incluso o machismo, a homofobia, a transfobia, a xenofobia etc.). Ou seja, a universidade pública não pode compactuar com os privilégios que fundaram a sociedade brasileira nas formas do clientelismo, do favoritismo e dos particularismos presentes ainda hoje em nossa tessitura social.

E para dar cabo desta parte primeira, a das saudações, dou-lhes boas-vindas à história. Isso porque vocês habitam agora um corpo que historicamente esteve na vanguarda de muitas das transformações que refundaram a contemporaneidade. A Universidade de Paris I, Pantheon Sorbonne, guarda no salão principal do prédio que abriga seu curso de Direito um painel que inscreve os nomes dos estudantes e professores mortos pelo Antigo Regime durante a Revolução Francesa. As revoluções de 1848, desencadeadas nas principais universidades europeias, fincaram o moderno ideal de democracia e não a partir de uma cosmovisão burguesa, como a Revolução Francesa de 1789, mas compondo forças com trabalhadores pobres. Também os levantes de Córdoba, em 1918, que mudaram a feição das universidades latino-americanas conquistando voz, na política universitária, para os estudantes e cátedras livres para os docentes. Em 1968, estudantes também tomaram as ruas de Paris, de Atenas e pagaram com a vida a desocupação, pelas tropas do Exército, da Praça de Tlatelolco, na Cidade do México. Em 2011, estudantes e trabalhadores (a aliança mais temida pelas classes dominantes) lavraram com sangue a irrupção de uma Nova Revolução Egípcia; ainda que tivesse sido golpeada, em 2013, pelo Exército, os jovens que ocuparam a Praça Tahrir e ruas das principais cidades egípcias puseram fim a três décadas de autoritarismo.

Sintam-se em débito ainda com todos aqueles jovens latino-americanos que, como vocês, tinham o sonho de se formar e de construir suas carreiras; mas porque sonhavam também com uma realidade mais justa puseram-se em choque contra as ditaduras militares de segurança nacional no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Chile, na Guatemala, no Peru, na Nicarágua, na República Dominicana, no Uruguai e no Paraguai. E pelas escolhas que fizeram, tiveram seus sonhos tragicamente interrompidos. Que habitem seus sonhos também os sonhos de Alexandre Vannucchi Leme (estudante de Geologia da Universidade de São Paulo), Abílio Clemente Filho (aluno de Ciências Sociais da UNESP de Rio Claro), Cilon da Cunha Brum (aluno do curso de Economia da PUC de São Paulo), Stuart Angel Jones (estudante de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro), Iara Iavelberg (egressa do curso de Psicologia da Universidade de São Paulo) e tantos outros – todos presentes em nossos pensamentos! – que tombaram, mas tomando de empréstimo o lema de Emiliano Zapata: tombaram em pé e não de joelhos!

Pois bem, agora no ensino superior público, dou-lhes boas-vindas à Pátria Educadora proclamada no dia 1º de janeiro de 2015 pela presidenta Dilma Rousseff, na aurora de seu segundo mandato presidencial. É preciso, antes de mais nada, apresentar-lhes os caracteres dessa pátria e, concluído o primeiro ano de sua existência, engendrar aqui uma espécie de balanço de suas realizações, em especial, para as universidades públicas, o que significa dimensionar o abismo em que elas estão mergulhadas.

Para isso, a tarefa é complexa. É preciso concatenar ao menos três elementos que explicam os processos em curso e que afetam diretamente o cotidiano da comunidade acadêmica: a crise do capitalismo mundial, a crise de financiamento das universidades públicas e o avanço dos projetos privatistas que almejam a conversão da educação, de um direito, em mercadoria, ou seja, em privilégio para pagantes e para o benefício do setor privado.

A começar, crises não são desvios ou condições anormais no desenvolvimento do capitalismo histórico, constituem uma variável lógica de sua processualidade dialética. Cíclicas ou estruturais, desde o advento do que Perry Anderson identificou como o ponto zero dos ciclos de acumulação capitalista – na Itália setentrional do Renascimento Italiano, no séc. XV -, até a consolidação de um sistema-mundo capitalista e a planetarização do espaço político-econômico mundial (com o advento da industrialização e, a partir dela, da divisão internacional do trabalho e os processos de mundialização do capital), a expansão comercial, viabilizando a expansão financeira, produziria no auge do desenvolvimento capitalista aquilo que Fernand Braudel chamou de sinal de outono, ou seja, o início do perigeu de um ciclo de acumulação que é capaz de levar à destruição do sistema como um todo, reedificado em termos dialéticos a partir de novos parâmetros de relações, caso emblemático da crise de 1929 e que fez ruir o padrão ouro como unidade de conversão monetária para transações internacionais, isso porque a crise foi responsável pelo próprio desaparecimento da economia internacional como um todo, tendo sido reconstruída apenas em 1944, ainda no decurso da Segunda Guerra Mundial, com os acordos de Bretton Woods e o advento do padrão dólar. Em 1973, nova crise do capitalismo mundial: a crise internacional do petróleo fez ruir também muitos dos alicerces que estruturavam a economia internacional, demandando sua reconstrução sobre novas bases.

Em 2008, a crise dos subprimes, como sabemos, precipitou uma crise financeira internacional responsável pela retração de toda a atividade econômica mundial. Hoje, a bancarrota capitalista já varreu as principais economias europeias, flagelando trabalhadores gregos, espanhóis e portugueses enquanto fez intensificar a produção da indústria bélico-armamentista primordialmente nos EUA (estratégia responsável pela superação da crise mundial de 1929 mas, também, pelaSegunda Guerra Mundial e seus 80 milhões de mortos, segundo as estimativas de Ernest Mandel, na obra “Os significados históricos da Segunda Guerra Mundial”), fazendo adensar também os deslocamentos populacionais produzidos pela fome, pelo desemprego e pela guerra civil e, como contra resposta, os surtos de ultranacionalismo que agravam os quadros de intolerância e violência xenofóbica mundo afora mas, sobretudo, no centro do capitalismo mundial, com a notável organização de uma nova direita que vocifera ódio de classe e preconceitos diversos por todos os poros.

Após o término da Guerra Fria e a proclamação do Consenso de Washington, que impôs os termos dos vencedores para realidades terceiro-mundistas, as crises ganharam um novo componente: o corpo doutrinário neoliberal que definiu o compasso do processo de desmonte do Estado de bem-estar social na periferia do sistema mundial (doutrina política e econômica que, na verdade, é muito anterior; criada em 1944 por Friedrich Hayek nas linhas de “O caminho da servidão” e aperfeiçoado pelos autores da Sociedade de Mont Pèlerin – quase que uma ordem iniciática, formada por ele em 1947 -, mas que só viu condições de ser implementada após a crise internacional do petróleo e, em 1979, com o advento de uma Segunda Guerra Fria).

Do triunfalismo que dera luz às teses do fim da História aos profetas que diziam do fim próximo do Estado-nação, o que se viu foi o agigantamento de novos núcleos difusos de poder político e econômico (em ascensão já desde os anos 1970) concentrados nas megacorporações transnacionais, ao passo que os Estados, no centro do sistema-mundo capitalista, em termos de gastos militares e de estratégias protecionistas jamais abnegaram de sua comum condição de poder; o que fizeram foi ceder ainda mais o espaço da política, da arena interna até a elaboração das linhas mestras de sua política externa, para a consecução dos interesses desses grupos econômicos, responsáveis pelo mais atuante lobby nas casas parlamentares desses países, à revelia muitas vezes dos interesses de seu eleitorado mediano.

E enquanto isso, na periferia do sistema mundial, a barbárie capitalista levou à generalização das privatizações, a entrega de setores estratégicos dessas economias ao capital estrangeiro (alocado, sobretudo, nas potências centrais do sistema-mundial), à perda de direitos históricos da classe trabalhadora, a precarização dos serviços fundamentais e a agudização dos quadros de miséria e desemprego – sublinhe-se, como informou Paul Singer na obra “Globalização e desemprego”, que o desemprego, para autores, políticos e economistas neoliberais, não é um problema, mas uma necessidade para a manutenção de exércitos de reserva de mão-de-obra que, como produtos numa prateleira, seriam responsáveis por manter salários no nível das expectativas de lucro das classes proprietárias -; com isso, esclarece Perry Anderson no seu “Balanço do neoliberalismo”, o Estado neoliberal precisa manter aparelhos de repressão permanentemente voltados contra as tentativas de organização da classe trabalhadora, na luta por melhores salários e condições de trabalho. Corpo policial portanto servil não aos interesses do Estado, mas das classes empresariais que passam a vocalizar seus interesses por meio de governantes que governam não para a totalidade dos súditos, mas para suas oligarquias – forma degenerada de governo já desde os socráticos!

E às respostas da classe trabalhadora organizada e na luta por direitos, a doutrina neoliberal, implementada por governos latino-americanos alinhados aos interesses do imperialismo, se valeu das permanências dos antigos aparelhos de repressão oriundos do período ditatorial-militar, de detenções arbitrárias, das práticas de tortura e da conivência de autoridades judiciais para recrudescer a violência policial, sob o manto da impunidade, podendo-se dizer de um Estado de selvageria policial movido permanentemente contra as classes subalternas. Isso explica, entre outros fenômenos, a crescente criminalização dos movimentos sociais, o projeto de leiAntitterrorismo (PL 2016/2015) e o genocídio da juventude pobre, negra e periférica nas principais cidades brasileiras.

Na América Latina, como um todo, já teriam sido três ondas de choque neoliberal: a primeira, nos anos 1990, levou consigo parte da indústria nacional em várias dessas realidades, deixando para trás vagalhões de desempregados e uma paisagem de destruição social inconteste; a segunda, no despertar do novo milênio, resultou na quebra de sistemas financeiros como o argentino e em convulsões sociais em países como Peru, Bolívia e Brasil, clarificando o desastre acachapante das medidas neoliberais e possibilitando novo folego às esquerdas latino-americanas; e, a terceira, estamos atravessando neste exato momento em que o pêndulo muda de uma estranha esquerda (afeta ao próprio neoliberalismo, mas que dificilmente o assume em termos discursivos) em direção à direita declaradamente neoliberal (caso da destituição de Fernando Lugo no Paraguai, da vitória de Maurício Macri na Argentina, da maioria parlamentar eleita para o Congresso na Venezuela e do ascenso neogolpista e de uma esquizofrênica e histérica direita no Brasil).

Para não cairmos em nenhuma espécie de maniqueísmo, é necessário dizer que, no Brasil, o programa neoliberal não foi interrompido com a chegada de um Partido dos Trabalhadores ao poder. Já na Carta aos brasileiros ficava clara sua capacidade de acomodação à ordem vigente e, desta forma, o PT – um partido construído pela classe trabalhadora e que encampou lutas históricas – converteu-se em braço esquerdo do Partido da Ordem, ordem por sua vez neoliberal. Tomando emprestadas as reflexões do professor Fabio Luis Barbosa, em conferência proferida na Unifesp, oPartido da Ordem – a ordem neoliberal – teria dois braços, um braço direito, liderado pelo PSDB e dividido com as bancadas da bala, da Bíblia e do boi; e o esquerdo, o PT; ainda que autofágicos, mostraram-se, no poder, dedicados realizadores do programa neoliberal.

E durante essas três ondas de choque, o espectro da crise serviu de argumento para maior avanço das forças do mercado sobre os fundos públicos, mais privatizações, maior precarização das condições de trabalho da classe trabalhadora, mais desmonte do setor público e da oferta de serviços essenciais, como a educação superior pública, o que mais nos interessa nessas reflexões. Nesses termos, a retração da economia mundial, no Brasil, vem dando subsídios para que, na histórica disputa pelos fundos públicos, sigam sendo privilegiados os grupos ligados ao setor privado, ao mercado financeiro e à especulação capitalista.

E como, majoritariamente, vem ocorrendo esse tipo de apropriação? O ovo da serpente é o pagamento da rolagem dos juros da dívida pública para a produção do superávit primário esperado por investidores, que o tempo todo ameaçam o governo com a possibilidade de fuga de capitais.

E qual a origem da dívida pública? Sua origem são empréstimos; e é pública porque foram contraídos pelo Estado. No rol de credores tem-se, por sua vez, uma gama bem diversa de atores: instituições financeiras (públicas e privadas), o mercado financeiro (interno e externo) e empresas (nacionais e internacionais), entre outros.

E por que a dívida pública brasileira é, incontestavelmente, impagável? O argumento neoliberal aponta como causa o financiamento de gastos públicos, como despesas com o funcionalismo público (nós, professores e técnicos, por exemplo), previdência social, educação (como as universidades públicas – por isso o desejo enorme de privatizá-las ou privatizarem-se suas práticas), saúde e segurança.

E adivinhem quais as propostas neoliberais para a saída da crise de financiamento que afeta o setor público? Cortes em gastos públicos e mais transferência ainda para o setor privado! Tenho certeza de que todos os dias vocês ouvem esse mantra nos noticiários econômicos.

A resposta é, no entanto, mais complexa: a origem é a rolagem da dívida, ou seja, os gastos com juros sobre as dívidas contraídas anteriormente, aliada à política monetária e cambial responsáveis pelas altíssimas taxas de juros praticadas para o seu cálculo. E por que as taxas de juros são tão elevadas, no Brasil (14,15% aos 3 de março de 2016)? Essa foi uma das inovações do Plano Realdesde sua implementação, produzindo-se com isso a valorização artificial da moeda brasileira em relação ao dólar com a finalidade de atrair, em curto prazo, investimentos externos. O resultado é a produção artificial do superávit primário que foi responsável, desde a implementação do plano, pela sensação compartilhada de estabilidade financeira ao passo em que fez com que a dívida pública ganhasse gigantescas proporções, ao ponto de o Estado ter que obter novos empréstimos para pagar antigos empréstimos, ou seja, a rolar a dívida pública. A bola de neve inclui a lógica de que a baixa capacidade de pagamento afugenta investidores e, para atraí-los, deve-se aumentar a taxa de juros. De 2009 a 2013, da dívida que totalizava R$ 1,1 trilhão, dos quais R$ 574 bilhões foram originados de novos endividamentos, apenas R$ 491 bilhões foram pagos e por meio da arrecadação de impostos.

E enquanto escolas e universidades públicas padecem da falta de insumos básicos para o seu funcionamento, enquanto hospitais e outros serviços básicos não têm mínimas condições de atender as populações que necessitam desses aparelhos públicos, o pagamento dos juros vem consumindo dos cofres do governo em torno de 900 milhões por dia.

A situação ora chega a um impasse e ao início de uma curva em declive: não há como aumentar mais a taxa de juros, sob o risco de estourarem as contas públicas; bem como não há mais condições para a produção do superávit em razão do rombo nas contas do governo, que superaram a marca de R$ 110 bilhões em 2015, culminando em sua quase nula capacidade de pagamento. O resultado produzido já não é mais superavitário, senão deficitário.

O que mudou, com isso, do primeiro para o segundo mandato presidencial de Dilma Rousseff e por que isso nos interessa?

No primeiro mandato viu-se um conjunto de pressões do mercado para que se praticassem as taxas mais altas possíveis uma vez que quão maiores os juros, maior o montante a ser pago pelo governo aos seus credores, tornando-se consequentemente maior a dívida pública. No segundo mandato, que completa já um ano de cerco político e ameaças histéricas de impeachment, as exigências do mercado e de seus representantes diretos no congresso, como pré-condições para as composições de força que permitiriam ao governo Dilma completar seu mandato, são as medidas de ajuste fiscal, ou seja, contingenciamentos de gastos públicos (estamos falando de escolas, universidades, postos de saúde, hospitais etc.) para que se garanta a transferência de fundos públicos para o pagamento de parte dos juros da dívida (que, diga-se de passagem, nunca foi auditada).

Seria cômico se não fosse trágico: o anúncio da Pátria Educadora foi seguido, uma semana depois, pela apresentação do Plano Levy, conjunto de medidas de ajuste fiscal que levou ao contingenciamento de verbas para os serviços públicos e redução de benefícios trabalhistas tendo como meta o contingenciamento de R$ 122 bilhões, dentre os quais R$ 66,3 bilhões que deveriam ser obtidos, ainda em 2015, com cortes que atingiram, entre programas sociais e serviços diversos, repasses de verbas para a educação federal. O corte anunciado foi de 22,7 bilhões para o orçamento de 2015 e a prioridade das prioridades, o MEC, foi o que mais sangrou: em 7 bilhões. O intuito seria o de compensar o déficit público de 30,5 bilhões e a retração no PIB, garantindo o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública.

No 26º dia da nova era, o MEC anunciou o corte de 64,6% das bolsas do programa Jovens Talentos para Ciência, equivalentes a 34,1 milhões dos 52,8 orçados para o programa.

O início do primeiro ano da Pátria Educadora foi marcado também pela limitação da verba destinada pelo governo federal às IFES. Em fevereiro, apenas 1/3 da verba mensal acabou repassada e, nos meses seguintes, 1/18 avos do orçamento mensal, levando por três meses a cortes mensais de R$ 586,83 milhões e, com isso, totalizando 1,76 bilhões.

E foi a assim que a aurora da Pátria Educadora fez fechar, por falta de recursos, o Museu Nacionalda Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), incapaz de arcar com despesas de limpeza e de vigilância, o adiamento do início do ano letivo em diversas IFES – inclusive por não haver condições mínimas de higiene -, e na deflagração de greves de funcionários terceirizados, até então pagos com verbas de custeio, que tiveram o pagamento de seus salários interrompidos, casos da UFRJ, da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Federal do Goiás(UFG) e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

De berço do pensamento humanista, de elaboração e defesa dos direitos naturais, as universidades públicas, na Pátria Educadora, tornaram-se alvos de denúncias de assédio moral, de condições indignas de trabalho e até mesmo de trabalho escravo, por parte daqueles que, no foro privado, experimentaram a fome e muitos outros tipos de humilhação.

No mesmo ano, no decorrer de uma greve nacional que durou 139 dias e chegou a contar com a paralisação de mais de 50 instituições federais de ensino superior (IFES), de um total de 63, as universidades públicas acabaram novamente golpeadas por um segundo conjunto de medidas.

Em maio, o Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, anunciou o corte 69,9 bilhões no orçamento da União para 2015, chegando ao MEC o bloqueio de 9,4 bilhões no repasse de verbas para as IFES, 19% a menos do orçamento previsto para o ano, o que levou à redução de 10% das verbas de custeio e 47% de capital nessas instituições. Mesmo mês em que o governo federal suspendeu a concessão de bolsas do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) e que o contingenciamento chegou ao Programa Ciência sem Fronteiras, cujos recursos foram congelados em 2,1 bilhões; e no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), que teve o número de vagas reduzido em 50% em razão do corte de 362,8 milhões no programa.

Já em julho, os cortes chegaram à pós-graduação com o contingenciamento de em torno de 75% do orçamento do Programa de Apoio à Pós-Graduação (PROAP), programa responsável pelo custeio de toda a pós-graduação no país. Com isso, o grau de excelência das pesquisas realizadas na pós-graduação, as demandas assumidas por seus respectivos programas, publicações de divulgação científica e a própria mobilidade de pesquisadores ficaram severamente comprometidos.

No mesmo mês, a UFF, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) vieram a público para dizer que sofreriam cortes no fornecimento de energia elétrica em vários de seus departamentos, em razão do atraso no pagamento das concessionárias e do vulto de suas dívidas.

A dificuldade de pagamento de contas de manutenção como energia, água e mantimentos básicos é, no entanto, compartilhada por praticamente todas as IFES desde o início dos contingenciamentos, bem como o pagamento de contratos com empresas terceirizadas e problemas de infraestrutura, como manutenção predial, por exemplo.

Um dos efeitos imediatos dos novos contingenciamentos foi a interrupção de grande parte das obras que ainda não haviam sido concluídas desde o Reuni, deixando carcaças de prédios inacabados como monumentos perenes da precarização e das medidas de ajuste fiscal, nos campida Pátria Educadora. E dentre as atividades cotidianas dos reitores, por sua vez, na ordem do dia a prioridade passou a ser decidir o que não pagar.

Os impactos chegaram, no dia 17 de julho, aos programas que previam a expansão de creches e quadras esportivas nas IFES, com o bloqueio de 3,4 bilhões, equivalentes a 1/3 do corte total para a educação.

No dia 30, o governo federal anunciou novos cortes no orçamento público de 2015. Dessa vez de 8,6 bilhões, atingindo o MEC em 1 bilhão e elevando os cortes, no repasse de verbas para as IFES, a 12 bilhões. Curiosamente, o anúncio foi acompanhado da destinação, por meio da Medida Provisória (MP) 686/2015, de mais R$ 5,1 bilhões para o Fies.

Em agosto, novos cortes deveriam elevar a arrecadação em 32 bilhões e sob a justificativa de cobrir o déficit da previdência. O Plano Levy-Calheiros, que inscreveu 16 medidas, sangrou no total 26 bilhões em cortes dos gastos para 2016, com o intuito de sanar o déficit fiscal nas contas públicas e impactando diretamente programas sociais e serviços que já haviam sido brutalmente atingidos no início do ano.

Este segundo pacote de contingenciamentos foi ainda mais rigoroso que o primeiro, incluindo a suspensão de concursos públicos até o fim de 2016, fundamentais para a reposição do déficit do quadro permanente das universidades; bem como o fim do abono-permanência, medida que tende a aumentar o número de pedidos de aposentadoria e ampliando ainda mais o déficit no quadro de docentes e técnicos-administrativos nas universidades federais.

O terceiro pacote foi anunciado no dia 19 de fevereiro, próximo passado: mais cortes, desta vez de R$ 23,4 bilhões nos gastos públicos do Orçamento Federal para o ano de 2016. Mais uma vez o escopo é o de garantir o superávit primário, a fim de pagar os juros e amortizações da dívida pública ao sistema financeiro, às expensas do serviço público e de programas sociais. O MEC, terceira pasta mais afetada pelos novos contingenciamentos, teve corte de R$ 1,3 bilhão, com a redução dos valores empenhados de R$ 32,8 bilhões para R$ 31,5 bilhões. O objetivo anunciado, mais uma vez, é o de cumprir a meta de superávit primário de 0,5% do PIB, o que para o setor público equivale a 30,5 bilhões.

A fórmula está muito claramente dada: a saída para a crise capitalista é a penalização da classe trabalhadora, com o corte de direitos sociais, mantendo-se intacta a dívida pública que vem comprometendo, com a rolagem dos juros, em torno de 45% de todo o orçamento.

Os cortes, nas IFES, atingiram principalmente verbas de custeio e de capital, culminando em ainda mais demissões de trabalhadores terceirizados, cortes de bolsas de monitoria, iniciação científica e programas de assistência estudantil, para dizer pouco.

O resultado das novas medidas foi imediato para a educação superior pública: no dia 18 de fevereiro, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que é a maior agência federal de fomento à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico nacional, anunciou a exclusão de mais de 45 mil bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência(PIBID), o que significa o abandono do programa universidade-escola, a mais importante iniciativa de todos os tempos para a articulação entre universidades e escolas públicas, atingindo de imediato 3 mil escolas públicas que serão desligadas do programa que, sequer, pôde concluir seu primeiro ciclo.

O desmonte flagrante do ensino público superior responde a que lógica no atual estágio do desenvolvimento capitalista? Cumpre o propósito de intensificar a agenda neoliberal promovendo a privatização do ensino público superior, projeto que vem sendo encampado a largos passos, com celeridade pouquíssimas vezes vista em trâmites legislativos e no animus expresso pelo Executivo.

A primeira iniciativa, dentre muitas, e que vale destacar, é a decisão emanada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos autos da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) n° 1.923, proposta pelo PT e pelo PDT contra a Lei 9.637/98, dos idos da presidência de Fernando Henrique Cardoso. A lei possibilitava a contratação, pela Administração Pública, de prestadores de serviços viaOrganizações Sociais (OS’s) sem concurso público, sem estabilidade funcional (ou seja, com quase nula capacidade de mobilização na luta por direitos) e sem regime de dedicação exclusiva ao ensino, pesquisa e extensão. O curioso é que a ADIN impetrada pelo PT, contra lei do sumo-sacerdote do PSDB, negada pelo STF, cai no colo do PT agora como Partido da Ordem. Tanto é, que o modelo de gestão tem a bênção declarada da CAPES (por meio da declaração de sua presidência) para que seja implementado em universidades públicas.

O laboratório de experimentos neoliberais para a gestão do erário, na educação, vem sendo o Estado de Goiás, que já declarou o fim dos concursos públicos para professores da rede estadual, optando pela generalização do modelo de contratação via OS’s. Nas universidades públicas, o tipo de contratação não se restringiria a funcionários técnico-administrativos, mas também a pesquisadores e professores que passariam a ser contratados sem concurso público de provas e títulos e em regime celetista. Nossa categoria, como a conhecemos hoje, entraria em processo de extinção.

Outra medida atentatória ao caráter gratuito e democrático das universidades públicas, ovacionada como alternativa para sua complementação orçamentária é a Proposta de Emenda Constitucional(PEC) dos cursos pagos, a PEC 395/2014 (de autoria do deputado Alex Canziani, do PTB-PR) que altera a redação do inciso IV do artigo 206 da Constituição Federal, que garante a “gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais”. A alteração permite a cobrança, em universidades públicas, por cursos de extensão, pós-graduação lato sensu (as especializações) e até mesmo o mestrado profissional, estabelecendo no ambiente de ensino público o critério socioeconômico como fator determinante das possibilidades de os alunos ampliarem sua formação, divisor das possibilidades de acesso ao ensino de qualidade. Não se trata apenas da submissão da educação à lógica do mercado, convertida em produto, mas de uma mudança brutal nos significados que permitem suas conexões com o entorno social com quem compartilha, a universidade, sua existência. No campo da extensão universitária, que deve irradiar extramuros o conhecimento científico e tecnológico produzido na seara da pesquisa e também nas ações de ensino, os segmentos de sociedade historicamente alijados do ensino superior de qualidade, que custeiam essas atividades já por meio dos impostos que pagam, teriam que tipo de contrapartida? A oferta de um produto, caso sejam capazes de consumi-lo!

E enquanto a comunidade acadêmica, estarrecida (que fique claro: estamos tratando apenas da parte dela que se opõe à mercantilização do ensino público) ainda tenta dimensionar os impactos da medida, outro projeto passa a tramitar ameaçando agora a gratuidade na própria graduação e, pasmem, em nome da democracia! Trata-se do Projeto de Lei (PL) 782/2015, de autoria do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), que propõe que alunos com renda familiar igual ou superior a 30 salários mínimos (26,4 mil) paguem anuidade, com base nos custos por aluno em cada curso, em universidades públicas. Trata-se da ponta da lança; basta que sua regulamentação seja feita para que a revisão do teto previsto seja uma variável lógica do avanço das forças privatistas que defendem a medida com bocas salivantes.

No ambiente acadêmico, ambas as iniciativas parlamentares criariam, em curto espaço de tempo, qualidades distintas de alunos: aqueles que pagam e, por isso, considerariam ter mais direitos; e aqueles que não pagam porque, nessa perspectiva, estariam utilizando-se de fundos públicos para custear seus estudos. Como se não bastassem as catastróficas experiências norte-americana e chilena, que operam com modelo análogo e que criaram gerações de egressos endividados.

E já que o pio senador defende sua iniciativa dizendo-a democrática, é imperativo afirmar que ela impõe o fim da universidade pública que defendemos, ou seja, gratuita e democrática, estabelecendo-se um regime plutocrático de relações. Eu explico: enquanto em termos teórico-conceituais a democracia é a forma de governo na qual se governa para a realização do bem comum; na plutocracia persegue-se a realização dos interesses daqueles que podem pagar.

A última iniciativa de que trataremos aqui é o PL 2177/2011, que cria o Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, marco legal sancionado, nos termos da Lei 13.243/2016 pela Presidência da República no dia 11 de janeiro de 2016. De seu conteúdo, nos interessam as contradições que alusivas aos rumos que seriam tomados pela pesquisa científica no Brasil, ditados não mais por agências governamentais e em nome de um projeto nacional, mas com poder notável de vocalização para as empresas privadas. A guisa de exemplo, docentes de universidades públicas contratados em regime de dedicação exclusiva (DE) ao ensino, pesquisa e extensão, não seriam mais, na prática, de DE, ficando franqueada a possibilidade de exercerem atividades remuneradas de pesquisa em empresas, bem como a utilização das instalações, laboratórios, equipamentos e insumos das universidades públicas para pesquisas de interesse das empresas. O docente, em regime de DE, segundo o novo marco, fica autorizado a exercer até 8 horas de atividades semanais fora da universidade (concessão que passou de 120 para 416 horas anuais). E a propriedade intelectual da pesquisa feita por docente de universidade pública, em regime de DE, na universidade pública, passa a pertencer a quem? Às empresas, que deterão a propriedade intelectual sobre os resultados das pesquisas. E que resultados as empresas esperam? Produtos! E como os produtos chegam à sociedade que custeou, por meio de impostos, a existência da universidade, o salário e em muitos casos a formação do professor, bem como parte dos custos da própria pesquisa? Embalados e à venda!

É essa a resposta que devemos à sociedade, que espera da universidade meios para a transformação da própria realidade social?

Convertidos direitos em privilégios, para pagantes, pretende-se que isso seja cidadania?

É o que a sociedade espera de nós?

Vamos mercantilizar todas as nossas práticas e vender aos excluídos do ensino superior público o que aqui se produz?

No corpo doutrinário neoliberal, o resultado que se espera, parece-nos, é que nas universidades brasileiras não se produza mais o pensamento crítico (tantas vezes acusado de ideológico): ele não é amoedável, não pode ser embalado e posto à venda em prateleiras de supermercados. Com isso, não formaremos mais intelectuais, capazes de pensar criticamente os rumos das sociedades humanas que caminham garbosamente em direção ao abismo do aprofundamento das desigualdades sociais, da crise econômica, dos sujos cercos políticos, da degradação ambiental e, o pior, caminham sem pensar!

Mas caminhamos vestidos com paletós e gravatas, orgulhosos de nossas formações e currículos, do volume de bens de consumo e quinquilharias que conseguimos acumular no tempo vão de nossas existências, ensimesmados, egocentrados, materialistas e conservadores; serviremos tão somente ao Deus ex machina!

Ou melhor, não serviremos de nada!

Bem-vindos à luta!